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osto de ler e escrever e por isso presto
atenção nas palavras como coisas, não como meros utensílios do
discurso. Certas palavras me cativam pela eufonia, outras pela
simbologia que carregam, algumas pela sua história e também há
aquelas que se destacam pelo poder de síntese e adequação que
possuem. Das palavras surgidas recentemente ‘factóide’ é uma das
minhas prediletas. Foi criada há alguns anos atrás pelo então
prefeito do Rio de Janeiro, César Maia. Está aí uma prova que a
manutenção da vitalidade da língua não é um privilégio do escritor e
que, na maioria das vezes, as melhores contribuições ao léxico são
feitas por pessoas que nada tem a ver com o ofício da escrita.
Mas por que eu gosto da palavra ‘factóide’?
Primeiro pela eufonia, é claro. É necessário até certo malabarismo
bucal para pronunciá-la. E segundo, porque estamos em plena era dos
factóides. Que palavra para descrever melhor a carga de lixo
jornalístico que a imprensa nos despeja na cabeça diariamente. Mais
de um terço do Jornal Nacional foi reservado ao nascimento da Sasha,
filha da Xuxa. Centenas de páginas de revistas e horas de jornalismo
foram gastos com os problemas amorosos do Ronaldinho, com a
separação da Adriane Galisteu e, vindo lá de fora, com os lugares
onde o Bill Clinton guarda os charutos.
Como bem definiu o Sr. Cesar Maia, um
factóide é uma informação irrelevante que não leva a lugar nenhum,
mas que tem o poder avassalador de colocar quem o cria sob os
holofotes da mídia. Reparem a energia criadora do Sr. Cesar Maia.
Ele condensou a palavra fato, com o sufixo óide, que
todos nós sabemos remete a algo que apenas imita as formas do
autêntico. Caso o senhor Cesar Maia seja lembrado no futuro apenas
pelos factóides que criou, ao menos lhe restará o consolo de ter
introduzido uma palavra sob medida para descrever uma lamentável
realidade da sua administração e do seu tempo. |
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