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Poesia no programa
da Xuxa

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m um artigo que circulou em listas de discussão recentemente veio a sentença: Chegará o dia em que veremos a Poesia no programa da Xuxa. Seria uma popularização e tanto. Isolando o caráter hiperbólico e bombástico da idéia, gostei do artigo porque me fez pensar em várias questões. Na verdade o autor partiu da premissa que muitas artes já encontraram o caminho do mundo pop e para a poesia chegar lá é só questão de tempo. Assumindo a promiscuidade com a cultura pop como um fato consumado o artigo faz um apelo veemente aos poetas para que resistissem à pasteurização cultural. Que os poetas sejam a última trincheira da autenticidade na arte. Não vamos nos aprofundar nestas teses porque é o assunto é indigesto. Vamos nos limitar ao problema da popularização. Para quem acha a idéia da poesia na TV mera história da carochinha lembro que há vários anos atrás o Fantástico colocou no ar durante certo tempo umas vinhetas onde atores famosos declamavam poesias de poetas ilustres. Informado o detalhe pitoresco voltemos ao fio da meada: queremos a popularização? e que popularização queremos, afinal? Queremos que a poesia, tal qual ela é, ganhe espaço no programa da Xuxa ou queremos uma poesia com cara de Xuxa? Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Decididamente a poesia intelectualizada de hoje não combina com TV e seria frustrante querer a aproximação dos dois. Por outro lado, tenho visto, na Internet mesmo, alguns exemplos de poesia ‘popular’. Há sites de cartões poéticos por aí que contam visitas às dezenas de milhares por mês. A qualidade do material destes sites não entusiasma, em alguns casos lembram-me o patamar de qualidade das atrações da Xuxa. Mas estão lá fazendo sucesso. A pergunta é: qualidade e popularidade são necessariamente disjuntos? Creio que não quando observo o exemplo de outras artes que em certos momentos conseguem o milagre da ampla aceitação. Quantos filmes e músicas não podemos citar como exemplos de sucesso de público e crítica? O estranho é que no passado, ressalvadas as proporções a poesia era uma arte mais consumida. Está certo que hoje há uma disputa maior pelas atenções do público. Chegará o dia em que a melhor poesia reencontrará o caminho do público? Céus e terra terão que se mover antes disto mas o primeiro empecilho não vem do público, e sim do meio literário, tão repleto de pedantes perdidos nos desvãos de vanguardas e intelectualismos. Bem, enquanto os poetas não se recuperam da famosa crise do homem moderno, algumas coisas práticas também podem ser feitas. Por exemplo: expandir os canais de divulgação da poesia. Ela não precisa se limitar ao livro impresso. Antes de chegar ao programa da Xuxa podemos ter poesia em sites, cartões, cartazes, e-mails, proteções de tela, papéis de parede, outdoors, agendas, recitais, CDs, fitas, marcadores de livros, camisetas, panfletos, performances, adesivos, chaveiros, e em todos aqueles lugares que os marqueteiros já usam há tempos com fins menos nobres. .A divulgação alternativa pode não ser a forma mais elegante e produtiva de consumir poesia, mas será que não funciona para atrair leitores potenciais desgarrados por aí? A popularização traz fatalmente a diluição, a pasteurização e a prostituição, mas funciona como caixa de ressonância e talvez este seja o preço a pagar pela melhor disseminação das boas obras e pelo melhor reconhecimento dos bons autores.

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