Exposição
Em uma rua movimentada, no início da noite, forma-se uma aglomeração em torno do corpo. Um homem armado de escopeta cuida do cadáver e mantém os curiosos a distância. O corpo jaz de bruços na calçada. O pescoço virado deixa ver o rosto comprimido contra a sarjeta. A boca aberta e torta, os olhos arregalados. Junto ao corpo uma poça escura de sangue que começa a coalhar.
Um homem de terno escuro e valise de executivo se aproxima da cena. Olha o morto, faz uma cara de nojo e cospe no chão. Depois se retira apressado.
Uma senhora vem de braço dado a uma moça:
— Virgem Maria. Dá pra ver na cara dele que era um homem perigoso. Ainda bem que nestas horas a polícia está de prontidão. Vamos embora, filha. Vamos, vamos.
Um velho pergunta ao da escopeta:
— Traficante? … É isso aí. Traficante tem que morrer.
Um mendigo que assistia a tudo sentado sob uma marquise próxima levanta-se com seus trecos e vem até perto do cadáver. Dá uns tapinhas de leve nas costas do morto:
— Deixe pra lá. Descanse em paz, viu?
O mendigo pega umas folhas de jornal que trazia consigo e estende sobre o cadáver escondendo dos curiosos a visão triste da morte.