Jogo de xadrez 1/3
O suspeito caminha de um lado para o outro da sala e diz nervoso apontando para o advogado.
— Você tem que me livrar dessa. Pago você para isso. E pago muito bem.
— Estou fazendo o possível, mas a sua situação está complicada. Há muitos indícios contra você.
Enquanto os dois falam, uma pedra é arremessada contra a janela da sala. A pedra e os estilhaços de vidro se espalham pelo piso.
— Que diabos. Onde está a polícia? Você não chamou os caras?
— Já chamei. Eles virão logo.
— Acho bom porque aquela turma lá fora está ficando perigosa.
Do lado de fora da casa, um grupo de pessoas agitadas se concentra no portão da casa e xingam o suspeito aos gritos de “assassino”.
O suspeito observa o grupo por uma fresta da cortina enquanto o advogado sentado no sofá olha para o relógio a todo instante. O suspeito fica gradativamente mais exaltado.
— Temos que sair daqui. Esse bando logo vai entrar aqui para me linchar.
— Logo a polícia estará aqui.
— Acho bom mesmo. Esses incompetentes nunca estão onde são necessários.
O suspeito, que espiava pela janela, olha para trás e se assusta:
— Ei, quem é você? O que está fazendo dentro da minha casa?
Vladimir que estava encostado na porta da cozinha intervém:
— Eu vim tirar você daqui.
O advogado se levanta e pergunta a Vladimir:
— Quem é você?
— Sou da Justiça. Estou encarregado de tirar ele daqui antes que seja tarde.
O advogado questiona:
— E onde estão os outros? Veio só você? Como entrou aqui?
— Entrei pelos fundos para não chamar a atenção. Meu carro está lá atrás. Vou levar ele para lugar seguro.
— Isso não me parece uma boa idéia. Meu cliente …
Enquanto o advogado falava outras pedras são arremessadas contra a janela e alguém começa a forçar a maçaneta da porta. O suspeito reage:
— Meu Deus do céu. Eles estão na porta. Vão acabar comigo.
Vladimir cobra uma posição dos dois:
— Como é? Você vem comigo ou vai ficar aqui para virar carne para os cachorros?
Lá fora, os gritos aumentam. Xingam o suspeito, chamam-no de assassino e começam a pedir pelo seu linchamento.
O advogado fala ao seu cliente:
— Acho que você não tem escolha. Vá com o policial que eu encontro vocês na delegacia.
Vladimir conduz o suspeito pelos fundos da casa. Com as luzes apagadas, os dois passam pelo quintal, pulam o muro e vão até o carro de Vladimir estacionado embaixo de uma árvore.
— Você vai dentro do porta-malas.
— Qual é cara? Não vou não.
— Você prefere ir no banco de trás? Terei que passar no meio daquela turma lá fora. Eles podem reconhecer você.
— Ok. Você me convenceu.
O suspeito entra no porta-malas e Vladimir conduz o carro passando pela turba de linchadores que nesse momento está invadindo a casa do suspeito. Algumas quadras adiante, Vladimir cruza com três viaturas da polícia que seguem em disparada com sirenes ligadas na direção da casa do suspeito.
Vladimir dirige rápido pelas ruas e começa a se afastar da cidade. Vladimir escuta o suspeito se debatendo dentro do porta-malas querendo explicações sobre o que está acontecendo. Vladimir ignora a agitação do suspeito e pensa que teria sido melhor se o tivesse algemado e amordaçado. Depois de mais de uma hora rodando, Vladimir chega a uma chácara nos limites da cidade, encosta o carro próximo à casa e abre o capô do porta-malas. O suspeito reclama:
— Mas que diabo. Estou há horas chacoalhando nesse porta-malas.
O suspeito logo percebe que algo está errado.
— Ei, cara. Isso aqui não é a delegacia.