Jogo de xadrez 2/3

Vladimir aponta o caminho para o suspeito.
— Entre na casa. Vamos passar a noite aqui.
— Eu não quero ficar aqui. Você tem que me levar para a delegacia.
— Pensei que você quisesse distância da cadeia.
— Eu só quero ficar a salvo dos loucos que estão a fim do meu couro.
Os dois entram na sala da pequena casa de campo que tem uma mobília rústica. O suspeito se volta para Vladimir e pergunta:
— Você é da polícia?
— Sou da Justiça.
— Isso não está me cheirando bem. Não quero ficar aqui.
O suspeito toma a direção da porta, mas Vladimir tira o revólver da cintura e aponta para ele.
— Você não vai a lugar nenhum. Sente-se nesta cadeira.
Vladimir pega um par de algemas e prende o pulso esquerdo do suspeito a um olhal fixo em um pilar de madeira da casa.
— O que você quer comigo?
Vladimir pega outra cadeira e senta-se em frente ao suspeito.
— Quero apenas conversar com você.
O suspeito mantém silêncio por um tempo e depois dispara:
— Você é parente da vítima.
— Já lhe disse, sou da Justiça. E a justiça deve ser neutra. Não pode ser feita pelas partes interessadas. Garanto a você que não tenho nenhuma relação com a vítima.
— Eu não sei o que estou fazendo aqui. Estou sendo acusado de um crime. Não existem provas contra mim, mas parece que todos querem meu fim. Eu tenho direito a um julgamento justo, a um advogado.
Vladimir aguarda um momento e então responde ao suspeito:
— Para a Justiça, para a verdadeira Justiça, não vem muito ao caso se existem provas contra você, se você tem um bom advogado ou se o seu julgamento foi justo. Só importa mesmo se você é inocente …. ou culpado.
O suspeito esboça um sorriso, mas se contém e replica:
— A verdadeira Justiça. Não sei bem do que você está falando. O que eu sei é que você está me mantendo cativo ilegalmente e isso é contra a lei. Eu tenho meus direitos e acho bom você me soltar agora senão a coisa pode ficar preta para você.
Vladimir abre a gaveta da mesa próxima e retira uma pequena caixa de madeira. Enquanto monta as peças do jogo responde com calma ao suspeito:
— Você é inteligente e nós temos tempo. A noite pode ser longa. Eu lhe proponho o seguinte: vamos aproveitar o tempo e jogar um pouco.
— Não estou com vontade de jogar.
Vladimir acrescenta:
— O jogo é simples. Se você der xeque-mate estará livre para sair por aquela porta.
— E se eu perder?
— Terei que entregá-lo à Justiça.
Vladimir arma o tabuleiro, arrasta a mesa para próximo dos dois e dá o primeiro lance. O suspeito fica em silêncio por um longo período. De vez em quando, olha para Vladimir que mantém um semblante inexpressivo. Enfim, o suspeito move uma peça no tabuleiro. Os dois permanecem jogando em silêncio. O jogo avança até que o suspeito finalmente fala:
— Eu sou inocente.
Vladimir não diz nada. O suspeito continua.
— Não há provas contra mim. Tenho ficha limpa. O que estão fazendo comigo é linchamento. Nem fui julgado e querem acabar comigo. Ninguém conseguiu provar nada contra mim até agora.
Vladimir ouve, mas mantém a concentração no tabuleiro. O jogo prossegue equilibrado.
O suspeito volta a falar:
— Minha vida está um inferno. Sou pré-julgado. Não posso sair na rua. Perdi meus amigos, as pessoas me tratam como um monstro. Tem horas que penso que seria melhor se …
— Se …
— Se aquele povo entrasse na minha casa e acabasse com tudo de uma vez.
— Linchamento não é Justiça. Não se faz justiça com emoção.
— Você tem razão. Talvez eu esteja enganado a seu respeito. Eu devia agradecer a você por me salvar a vida.
— Não é necessário. Não me custou nada e sua vida não representa nada para mim.
— Você também já me condenou, não é mesmo? Como todos. Você é mais um boi na manada.
Vladimir não diz nada e continua jogando. Depois de um tempo, o suspeito retoma a conversa.
— Eu não matei aquela vadia. Sou uma pessoa de bem e minha família está do meu lado. Somos gente com nome a zelar.
— Ela era uma vadia?
O suspeito hesita por um instante.
— Era. Não valia nada, mas não fui eu quem a matou. Ela pode ter enganado todo mundo, mas não a mim. Ela não prestava.
Vladimir dá um lance e concorda com o suspeito.
— Sou obrigado a concordar com você. Algumas pessoas só ocupam espaço e consomem energia.
O suspeito complementa exaltado.
— Sim. Esse mundo está cheio de tralhas que não valem nada. São poucas as pessoas de bem.
— Não sei quanto a você, mas penso que essas pessoas não fazem falta a ninguém. Quem vai chorar por elas? Que diferença elas vão fazer quando partirem?
— Concordo.
Vladimir se concentra no lance, move uma peça e anuncia:
— Xeque.

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