Jogo de xadrex 3/3
O suspeito se remexe na cadeira. Analisa o lance e sai do xeque. Depois, fala:
—Você deve estar acompanhando o meu caso pela imprensa.
— Sim. Estou acompanhando seu caso, mas não pela mídia.
— Então você sabe que as acusações contra mim são baseadas apenas em provas circunstanciais. Ninguém apresentou nenhuma prova convincente contra mim.
Vladimir não responde. Apenas se concentra no jogo. O suspeito continua:
— Não sei porque me escolheram para Cristo. Tem tanto crime acontecendo todo dia por aí.
— As pessoas têm uma curiosidade mórbida por crimes hediondos.
O suspeito permanece em silêncio. Vladimir complementa:
— Eu, por exemplo, tenho curiosidade em saber o que o assassino pensou na hora do crime. Fico imaginando se ele se divertiu com o que fez.
O suspeito mantém o silêncio.
— A garota era linda. O assassino deve ter tido bons momentos com ela. Ao modo dele, claro. Não concorda?
O suspeito se concentra no jogo.
— Eu gostaria de ouvir o relato do assassino sobre como o crime aconteceu. Gostaria de saber tudo detalhadamente. Acredito que ele relembra a cena sempre que se pega sozinho. Pena que ele não possa compartilhar isso com ninguém.
O suspeito não diz nada, mas perde a concentração no jogo. Vladimir dá um lance e continua.
— Às vezes eu penso: cometer um crime desses é como roubar uma obra de arte do museu. Você tem o quadro com você, ele vale muito, mas não pode mostrar para ninguém. O quadro fica trancado em um quarto escondido. Só o criminoso vai lá de vez em quando para apreciar sua obra.
Um longo silêncio se segue. Vladimir acrescenta:
— Você não sentiria vontade de contar o que fez, se aquilo que fez o marcou muito? Principalmente se aquilo foi especial e inesquecivelmente excitante?
O suspeito rompe o silêncio:
— Não entendo o que você está dizendo.
— Ah, eu acredito que entende. Se você me contasse agora o que aconteceu entre você e a garota, ficaria tudo entre nós. Eu não teria como usar isso contra você. Seu advogado alegaria que você falou porque estava sob a ameaça de outro louco como você.
— Não vou contar nada a você, panaca.
— Vai guardar tudo para você? Não vai dividir sua experiência inesquecível com ninguém? Foi excitante demais, não foi?
O suspeito mantém o silêncio.
— Eu vi as fotos da cena do crime. Confesso que senti arrepios. Você foi cruel, cara, muito cruel.
O suspeito esboça um sorriso, mas se contém em seguida e move uma peça no tabuleiro. Vladimir continua.
— Eu me pergunto se faria algo como aquilo que você fez. Concluo que não tenho coragem. Falta-me sangue frio e imaginação. E isso você tem de sobra, não é mesmo?
O suspeito olha para Vladimir por um momento e depois para o tabuleiro. Vladimir:
— Adoraria saber como ela reagiu na hora.
— Mesmo?
— Sim. Muito.
O suspeito hesita um instante e depois diz:
— Não, não posso. Deixa para lá.
O suspeito move mais uma peça no jogo. Vladimir olha para ele e depois para o tabuleiro. Move a rainha e anuncia:
— Xeque mate.
O suspeito olha para o tabuleiro surpreso como quem recobra a atenção depois de um devaneio. Confere o lance com semblante contrariado e quando olha de novo para Vladimir, já o encontra em pé empunhando a pistola. O criminoso tenta se levantar, mas cai no chão fulminado por uma bala no peito.