O colecionador 2/2

Posted in O homem de ouro on setembro 22nd, 2008 by radames

— Borboletas.
— O quê?
— Borboletas. De todos os tipos. Tenho centenas.
— Não acredito.
— Pode crer. É verdade.
— Não acredito que você seja capaz de uma coisa dessas.
— Ora. O que é que tem?
— Como você pode tirar a vida de um bichinho tão delicado e indefeso?
— Mas o que é que tem? Tem tanta borboleta pelo mundo. Algumas chegam a ser praga.
— Não interessa. Você já perguntou o que a borboleta acha de virar peça de coleção?
— Borboleta não pensa, ora.
— Justamente. Também não fala. Não tem defesa.
— Espere aí. E os teus cadáveres dentro das geladeiras? Eles falavam.
— É diferente.
— Não sei em quê.
— Os cadáveres não eram inocentes. Não tinham a pureza de uma borboleta. O bicho homem é diferente.
— Olhe, quer saber de uma coisa? Fique aí com teus cadáveres que eu vou pra minha casa ficar com minhas borboletas.
O colega de Paranhos se retira. Paranhos anda pela sala com as mãos na cintura. Toca os gavetões como quem tem algum vínculo sentimental com eles. Paranhos:
— Até borboletas.

Tags: , , , , , ,

O colecionador 1/2

Posted in O homem de ouro on setembro 17th, 2008 by radames

Paranhos percorre os corredores do Instituto Médico Legal acompanhado de um amigo. Paranhos:
— Você sabe. Todo mundo tem o seu hobby. Uns colecionam selos, outros carteiras de cigarro. Os mais favorecidos colecionam carros antigos. Veja a criançada de hoje. São loucos por figurinhas. Sabe esses álbuns que tem por aí? É figurinha de craque de futebol, personagem de programa de televisão e por aí vai..
— É. Eu sei. Eu também tenho a minha coleção.
— Pois é isso aí. Mas o que eu quero mostrar pra você é a minha coleção particular.
— Fica aqui no IML?
— Exato. Eu queria deixar em casa, mas o custo da instalação toda ficaria muito alto, entende?
— Que instalação?
— A instalação frigorífica. Veja, estamos chegando.
Os dois entram numa sala fria com forte iluminação fluorescente. Tudo muito limpo, asséptico. Paranhos:
— Chegamos.
— Não estou entendendo.
— Vou lhe mostrar.
Paranhos vai até a parede oposta. Puxa alguns gavetões. Vem um ar frio de dentro dos gavetões. Paranhos:
— Este aqui peguei faz uns dois anos. Foi difícil. Me custou muita procura, muita luta.
— Espere aí. Você quer dizer que…
— Exatamente, meu caro. Aqui está minha coleção de cadáveres.
— Mas estes gavetões estão todos cheios?
— Não, não. Alguns deles ainda aguardam morador. Você sabe, tem figurinha difícil em todo álbum. Aqui, por exemplo. Este gavetão faz tempo que está aguardando. Tem até a plaquinha com o nome. Está vendo?
— Mas isto tudo não é do IML?
— É e não é, sabe? O pessoal aqui é meu amigo. Fica assim tipo um empréstimo das instalações. Deixe eu lhe mostrar uma das figurinhas mais difíceis da coleção. Tá aqui, olhe. Veja a marca da bala. Certeira no coração.
— Confesso que estou surpreso.
— Aqui está o trabalho de minha vida.
Paranhos passeia pela sala olhando os gavetões. Pára diante de alguns. Paranhos:
— Sabe, dá até uma emoção. A propósito, você falou que também é colecionador.
— É verdade.
— E o que você coleciona?

Tags: , , , , , ,

Zero zero

Posted in O homem de ouro on setembro 10th, 2008 by radames

Paranhos sai do carro, apruma a gravata, abotoa o paletó e segue na direção do palácio. Sozinho, Paranhos sobe a longa escadaria. No topo da escadaria um segurança o cumprimenta e abre a porta dando-lhe passagem. Com elegância no seu terno preto de casimira inglesa, Paranhos caminha pelo saguão. Uma música suave e orquestral preenche o ar. O sapato preto e lustroso de Paranhos bate forte no piso de mármore. No final do saguão outro segurança indica o caminho a Paranhos que se dirige com passos decididos a uma escada espiral. Majestosa, a escada leva Paranhos ao pavimento superior. Paranhos toma a direção de um longo corredor. No final do corredor Paranhos encontra um oficial militar que o cumprimenta e abre-lhe uma porta. Paranhos atravessa a porta que logo é fechada atrás dele e caminha por um gabinete luxuoso onde outro oficial parece esperá-lo. Os dois se cumprimentam e o oficial o conduz a uma grande porta de duas folhas. O oficial abre as folhas e Paranhos entra num gabinete enorme e finamente decorado. O oficial deixa Paranhos e sai, fechando a porta. Não há ninguém no gabinete, além de Paranhos. Ele percorre despreocupadamente o gabinete. Uma grande mesa de reuniões. Um conjunto estofado para conversas informais. Uma escrivaninha imponente, muitos objetos de arte. Atrás da escrivaninha, a bandeira do Brasil. Na parede, as armas da República. Paranhos ouve uma descarga de vaso sanitário em algum lugar perto dali. Paranhos se detém na observação de alguns quadros. Uma porta se abre às costas de Paranhos.
- Boa tarde, Paranhos. Como vão as coisas?
- Quentes, senhor. Como sempre.
- Aceita um charuto? Paranhos escolhe um charuto de dentro da caixa. O homem acende um também e senta-se na escrivaninha.
- Bem, Paranhos, sente-se aí. Deixe-me mostrar-lhe os motivos que me levaram a chamá-lo aqui.
O homem dá umas baforadas. Paranhos o acompanha. O homem tira da gaveta uma pasta e distribui o conteúdo sobre a escrivaninha.
- As fotos são de algumas pessoas que estão nos trazendo algum constrangimento. Gostaria que você nos ajudasse a encontrar uma solução para esses indivíduos desagradáveis, Paranhos. Sua longa ficha de serviços o habilita para esta missão.
- Sinto-me honrado, senhor, mas a tarefa é árdua.
- Você terá todo nosso apoio. Terá carta branca para agir. Não lhe faltará nada. Nosso futuro está em jogo.
Paranhos dá uma longa baforada.
- Sim, mas …
O homem se levanta.
- Preparamos uma rede de apoio para atuar ao seu lado. Quero que você tenha uma idéia disso agora mesmo.
O homem aciona o interfone.
- Quer vir até aqui, sim?
Logo, o oficial que recebera Paranhos entra na sala.
- Leve o Paranhos para conhecer nossas instalações.
- Sim, senhor. Queira me acompanhar, senhor Paranhos.
Paranhos e o oficial saem do gabinete juntos e vão até o elevador. O oficial abre uma tampa no painel do elevador e aperta uma tecla secreta. O elevador desce. Após o segundo subsolo o elevador continua descendo. Paranhos:
- Não sabia que tínhamos um terceiro subsolo.
- Quase ninguém sabe, Paranhos.
A porta do elevador se abre. Paranhos se depara com uma imensa sala onde se distribui uma enormidade de aparelhos eletrônicos. Ao fundo, na parede um imenso mapa do Brasil repleto de marcações luminosas.
- Vamos falar com nosso cientista-chefe.
Os dois caminham até um senhor grisalho que usa guarda-pó branco. O cientista:
- Boa tarde, senhor Paranhos. Já o esperávamos. Aqui, como o senhor mesmo pode ver fica nosso centro tecnológico de apoio à missão que lhe foi destinada.
Paranhos demonstra fascínio pelo local. Anda pela sala observando com atenção máquinas sofisticadas e estranhas. Pára diante de uma impressora que emite um relatório. O cientista:
- A todo instante recebemos informações que alimentam nossos computadores. O computador faz uma triagem e cruza todas as informações. Depois analisa as probabilidades e nos fornece um relatório detalhado. Se você quiser saber algo sobre alguém pergunte ao computador.
- Fascinante.
Paranhos passa diante de uma parede repleta de monitores de vídeo. Em cada um transcorre uma cena diferente. Pessoas que andam na rua, reuniões de pequenos grupos, pessoas dentro de casa. O cientista:
- Através desses monitores acompanhamos os movimentos do inimigo. Nenhum deles sabe que é vigiado. Desta forma traçamos o mapa da rede de ligações entre eles.
Paranhos caminha mais um pouco. Detém-se em observar uma peça que o intriga. Assemelha-se a um capacete de aço de onde saem muitos fios na direção de um aparelho cheio de comandos. Paranhos:
- E isto?
- Isto faz parte de uma experiência que estamos realizando na tentativa de obter informações rápidas e confiáveis de inimigos relutantes. Usa-se na cabeça do inimigo.
Paranhos coloca a peça na própria cabeça como a um chapéu.
- Assim? Que tal estou?
- O senhor tem ótimo senso de humor, senhor Paranhos. A sua grande sorte é que o aparelho não estava ligado. Mas deixe-me entregar-lhe um pequeno souvenir que fizemos aqui.
Os dois vão até uma mesa repleta de engenhocas. O cientista entrega a Paranhos um telefone celular.
- É para o senhor.
- Obrigado, mas já tenho celular.
- É parecido, Paranhos, mas não é igual. Vai ser útil no teu trabalho. Com o botão nesta posição temos áudio. Mudando para o outro lado temos um gerador de tensão. O fone de ouvido se transforma num eletrodo. Basta aplicar no corpo do inimigo e ele receberá descargas estonteantes. Quem tiver algo para dizer ficará bastante estimulado a se aliviar da informação.
- A tecnologia não pára de evoluir.
O oficial que trouxe Paranhos vem até ele.
- O chefe quer vê-lo agora, senhor Paranhos.
Os dois sobem ao gabinete do chefe:
- Espero que tenha gostado do que viu. É apenas uma parte do que estamos fazendo.
O homem vai até a janela e chama Paranhos.
- Observe, Paranhos, lá na praça nossa bandeira verde-amarela tremulando, símbolo solene da grandeza de nossa Pátria. O futuro de nossas crianças está ameaçado. Milhões esperam atônitos atitudes enérgicas de homens valorosos como você.
O homem coloca a mão no ombro de Paranhos:
- O que me diz?
- Pode contar comigo, senhor.
- Eu sabia. A partir de hoje você é um dos nossos homens de ouro.
Paranhos cumprimenta o homem e se prepara para sair.
- Só mais uma coisa, Paranhos. Acrescentamos o zero zero ao seu código de identificação. Sei que usará o privilégio com responsabilidade.
Paranhos desce a escadaria com os olhos voltados para a bandeira do Brasil. Sente uma emoção se apoderando dele.

Tags: , , , , ,