Exposição

Posted in Relances on setembro 13th, 2008 by radames

Em uma rua movimentada, no início da noite, forma-se uma aglomeração em torno do corpo. Um homem armado de escopeta cuida do cadáver e mantém os curiosos a distância. O corpo jaz de bruços na calçada. O pescoço virado deixa ver o rosto comprimido contra a sarjeta. A boca aberta e torta, os olhos arregalados. Junto ao corpo uma poça escura de sangue que começa a coalhar.

Um homem de terno escuro e valise de executivo se aproxima da cena. Olha o morto, faz uma cara de nojo e cospe no chão. Depois se retira apressado.

Uma senhora vem de braço dado a uma moça:

— Virgem Maria. Dá pra ver na cara dele que era um homem perigoso. Ainda bem que nestas horas a polícia está de prontidão. Vamos embora, filha. Vamos, vamos.

Um velho pergunta ao da escopeta:

— Traficante? … É isso aí. Traficante tem que morrer.

Um mendigo que assistia a tudo sentado sob uma marquise próxima levanta-se com seus trecos e vem até perto do cadáver. Dá uns tapinhas de leve nas costas do morto:

— Deixe pra lá. Descanse em paz, viu?

O mendigo pega umas folhas de jornal que trazia consigo e estende sobre o cadáver escondendo dos curiosos a visão triste da morte.

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