Reality show 2/3

Posted in El justicero on setembro 20th, 2008 by radames

Sexta-feira, 21:45
Vladimir chega ao local em que os dois vão se encontrar. Antes de entrar, beija o crucifixo que leva no pescoço. É um bar quase convencional. Não há sinais explícitos sobre o estilo dos freqüentadores exceto por um ou outro detalhe de decoração ou por discretos acessórios de vestuário das pessoas presentes. Vladimir entende rápido os códigos do local. Ele sabe que essa fauna mal consegue se esconder por trás de seu verniz de normalidade. Trata-se de uma comunidade. Ele percebe os papéis que cada um desempenha no jogo que começa a ser jogado nesse local. As pessoas olham furtivamente para Vladimir, talvez se perguntando se ele é um novo membro ou apenas um curioso que apareceu para bisbilhotar. Ele não sabe quem é a Princesa. Nunca a viu sequer por foto, mas tem o número do celular dela, que conseguiu interceptando conversas na rede. Vladimir vai até um ponto do bar onde consegue uma visão panorâmica das pessoas presentes. Liga para o número da Princesa e aguarda. Ela atende, mas Vladimir não diz uma palavra. Mantém-se em silêncio até ter certeza de quem no bar está atendendo a sua ligação. É uma moça morena sentada em uma mesa ao fundo. Depois de encerrar a ligação ela gesticula indicando que não sabia de onde vinha a ligação. Há um homem com ela, sentado de costas para Vladimir. Vladimir passa a observar o casal. Ela se produziu para seu Lord. O cabelo negro e liso brilha mesmo sob a iluminação difusa do bar. No pescoço dela, uma gargantilha negra, nas unhas esmalte vermelho. O homem que a acompanha tem cabelos negros curtos, um porte robusto e usa um paletó de couro preto. Ele usa um anel de bacharel no anular direito. Ela fala mais do que ele com movimentos abundantes das mãos. Vladimir diria que ela está um pouco nervosa, mas excitada com o encontro. Depois de algum tempo de observação, Vladimir parte em passos decididos na direção da garota. A mesa dela fica próxima do corredor que leva aos banheiros. Vladimir passa por ela e esbarra na cadeira da Princesa. Pede-lhe desculpas e se dirige ao banheiro. Agora é uma questão de tempo. O celular com GPS que Vladimir deixou no bolso do casaco da Princesa vai levá-lo até onde ele quer.

Sexta-feira, 22:52
Enquanto espera no carro, Vladimir acompanha o reality show. Um endereço especial da rede lhe interessa no momento. A página inicial do endereço traz apenas o texto:
Hoje, show ao vivo. Especial para assinantes. Aguarde.
Em outra janela, Vladimir acompanha o sinal do GPS. Finalmente, o aparelho começa a acusar movimento. O carro em que a Princesa está se move rápido pelas avenidas da metrópole. Vladimir acompanha de carro a uma distância segura o trajeto de Princesa rumo ao seu destino incerto. Por que cabe a Vladimir limpar a sujeira em que os outros se metem de livre e espontânea vontade? A viagem termina próximo dos limites da cidade em uma área pouco habitada, onde predominam casas de padrão alto. Vladimir vê o Audi que estava em frente ao bar agora estacionado na garagem da casa indicada pelo GPS. Na tela do notebook a mensagem se altera:
Show ao vivo em instantes.
Vladimir se apressa. Reúne suas coisas em uma mochila, coloca a touca e entra na casa saltando pelo muro dos fundos. Os alarmes estão desligados, pois há gente na casa. O andar térreo da casa está vazio com umas poucas luzes acesas. Vladimir escuta uma música abafada vindo do andar superior e sobe com cuidado a escada que leva a um corredor longo do primeiro pavimento. A música vem de um quarto no final do corredor. Vladimir vai até a porta, encosta o ouvido e ouve gemidos abafados de mulher. Ele confere o trinco e vê que está destrancado. Com um movimento brusco e rápido Vladimir entra no quarto e salta sobre o homem que está em pé na beira da cama. Com movimentos rápidos, Vladimir derruba o homem e o imobiliza no chão. A garota na cama grita, mas seus berros são sufocados pela gravata que amordaça a sua boca. Ela se debate desesperada na cama com os pulsos presos por algemas à cabeceira da cama. O homem imobilizado no chão grita:
— Pare, por favor. Quem é você? Não atire. Vamos conversar.
Vladimir percebe que não era o que ele queria. Levanta-se e solta a mordaça da garota que se contorce na cama apenas com roupas íntimas. O homem, só de calça, levanta-se, encosta-se à parede e diz:
— É dinheiro que você quer? Vamos acertar isso sem violência.
Vladimir faz um sinal pedindo silêncio e se dirige à moça:
— Você é a Princesa?
— Não sou nenhuma princesa. Você está louco?
— A Princesa do chat.
— Não sei de quem você está falando.
Vladimir pega o celular e disca para o número da Princesa. O celular toca na bolsa da garota. Vladimir pega o celular da garota na bolsa e diz:
— Esta Princesa.
Ela olha desesperada para o celular.
— Este celular não é meu.
Vladimir se irrita:
— E o que ele faz em sua bolsa?
— Esse celular é da minha amiga. É quase igual ao meu. Acho que peguei o dela por engano.
O homem encostado na parede intervém na conversa.
— Escute, vamos resolver esse assunto. Eu posso lhe dar o dinheiro que tenho comigo. Você vai embora e todos ficamos bem.
Vladimir ignora os dois que agora começam a implorar para ele os deixar em paz. Enquanto eles falam, Vladimir tira da bolsa o laptop e abre a janela do reality show. O texto que aparecia antes foi substituído por uma imagem de webcam. Uma mulher amarrada a um cavalete em forma de xis aparece no centro da imagem. Ela está amordaçada, mas não demonstra medo. Parece estar aguardando por algo que vai acontecer. Vladimir mostra a imagem da tela para a garota que está na cama. Ela emudece na hora ao ver a transmissão da webcam. Vladimir pergunta:
— Essa é a Princesa?
— É a minha amiga. Não sei porque você a chama de princesa.
O homem encostado na parede atravessa a conversa:
— Escute. Eu sou casado, essa casa é de um amigo meu. Nós estávamos apenas nos divertindo. Não sei o que você quer aqui, mas já lhe disse, podemos conversar e resolver tudo sem violência.
Vladimir olha para o sujeito com um semblante que faz o homem se comprimir contra a parede e colocar-se em silêncio. Vladimir solta a garota da cabeceira da cama e ordena:
— Se vista que você vem comigo.
O homem encostado intervém.
— Eu lhe peço. Deixe ela em paz. Vamos resolver isso sem escândalo e sem confusão.
Vladimir se levanta e põe o indicador no rosto do sujeito.
— Você vai para casa agora e vai esquecer o que aconteceu aqui. Eu sei o suficiente sobre você para complicar a sua vida.
Vladimir arrasta a garota pelo pulso para fora do quarto.

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O colecionador 1/2

Posted in O homem de ouro on setembro 17th, 2008 by radames

Paranhos percorre os corredores do Instituto Médico Legal acompanhado de um amigo. Paranhos:
— Você sabe. Todo mundo tem o seu hobby. Uns colecionam selos, outros carteiras de cigarro. Os mais favorecidos colecionam carros antigos. Veja a criançada de hoje. São loucos por figurinhas. Sabe esses álbuns que tem por aí? É figurinha de craque de futebol, personagem de programa de televisão e por aí vai..
— É. Eu sei. Eu também tenho a minha coleção.
— Pois é isso aí. Mas o que eu quero mostrar pra você é a minha coleção particular.
— Fica aqui no IML?
— Exato. Eu queria deixar em casa, mas o custo da instalação toda ficaria muito alto, entende?
— Que instalação?
— A instalação frigorífica. Veja, estamos chegando.
Os dois entram numa sala fria com forte iluminação fluorescente. Tudo muito limpo, asséptico. Paranhos:
— Chegamos.
— Não estou entendendo.
— Vou lhe mostrar.
Paranhos vai até a parede oposta. Puxa alguns gavetões. Vem um ar frio de dentro dos gavetões. Paranhos:
— Este aqui peguei faz uns dois anos. Foi difícil. Me custou muita procura, muita luta.
— Espere aí. Você quer dizer que…
— Exatamente, meu caro. Aqui está minha coleção de cadáveres.
— Mas estes gavetões estão todos cheios?
— Não, não. Alguns deles ainda aguardam morador. Você sabe, tem figurinha difícil em todo álbum. Aqui, por exemplo. Este gavetão faz tempo que está aguardando. Tem até a plaquinha com o nome. Está vendo?
— Mas isto tudo não é do IML?
— É e não é, sabe? O pessoal aqui é meu amigo. Fica assim tipo um empréstimo das instalações. Deixe eu lhe mostrar uma das figurinhas mais difíceis da coleção. Tá aqui, olhe. Veja a marca da bala. Certeira no coração.
— Confesso que estou surpreso.
— Aqui está o trabalho de minha vida.
Paranhos passeia pela sala olhando os gavetões. Pára diante de alguns. Paranhos:
— Sabe, dá até uma emoção. A propósito, você falou que também é colecionador.
— É verdade.
— E o que você coleciona?

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Reality show 1/3

Posted in El justicero on setembro 15th, 2008 by radames

Sábado, 01:00
Vladimir observa Lord pendurado pelo pé como um animal no matadouro. A garota ajoelhada no canto do quarto grita histérica:
- Acabe com ele agora.
Vladimir olha para a faca sobre a mesa.

Seis horas antes
Sexta-feira, 19:00
Vladimir senta na escrivaninha e se põe a analisar as informações mostradas nas três grandes telas colocadas lado a lado para formar um semicírculo. Diante dele, os três monitores exibem uma profusão de janelas. Uma webcam capta alguém se movimentando no quarto. Em uma das janelas corre a conversa de duas pessoas em um mensageiro instantâneo. Outra janela mostra listas de arquivos sendo transferidos pela rede. Vladimir acompanha o reality show que montou aos poucos e com muita paciência. Um reality show especial onde os participantes não sabem que são observados. Pelo cabo azul chegam até Vladimir as intimidades de pessoas espalhadas pelo mundo virtual. Conversas soltas, imagens comprometedoras, trocas de arquivos, pequenas fofocas, confissões íntimas, tudo ao alcance de um clique de Vladimir que acompanha os dados sem um apetite especial. A maior parte do que vê são miudezas que não lhe interessam porque hoje ele quer fisgar um peixe grande.

Sexta-feira, 20:05
Um alerta sonoro chama a atenção de Vladimir. O nick Princesa entrou na sala de chat. Vladimir abre outra janela e passa a capturar o conteúdo reservado digitado por Princesa. Vladimir dá um tempo e entra na sala com o apelido Laura.
Laura fala reservadamente para Princesa: Olá, amiga, tudo bem?
Princesa fala reservadamente para Laura: Tudo bem, linda. E com você?
Vladimir conduz a conversa com sua isca simulando amenidades.
— Laura fala reservadamente para Princesa: Vai sair hoje, amiga?
— Princesa fala reservadamente para Laura: Sim, vou.
— Laura fala reservadamente para Princesa: Então hoje é o grande dia.
— Princesa fala reservadamente para Laura: Acho que sim Vou conhecer ele hoje.
— Laura fala reservadamente para Princesa: Legal. Espero que dê tudo certo.
— Princesa fala reservadamente para Laura: Tomara. Estou muito ansiosa.
— Laura fala reservadamente para Princesa: Não se preocupe. Vai fundo.
— Princesa fala reservadamente para Laura: E se ele não for aquilo que eu imagino?
— Laura fala reservadamente para Princesa: Seja otimista, amiga. Nada é o que parece.
— Princesa fala reservadamente para Laura: Estou com um pouco de medo.
— Laura fala reservadamente para Princesa: Seu anjo da guarda vai proteger você, sabia?
Vladimir percebe que entra na sala o nick Lord of Darkness.
— Laura fala reservadamente para Princesa: Bem, amiga, vou deixar você a vontade com seu lord.
— Princesa fala reservadamente para Laura: Obrigada, querida. Depois lhe conto tudinho como foi, ok?
Vladimir passa a acompanhar a tela que mostra a conversa de Princesa com Lord of Darkness. A amizade com a garota tinha lhe rendido a possibilidade de plantar um sniffer no computador dela. Rastrear diretamente o Lord era quase impossível. Ele não deixava rastros digitais. Vladimir acompanha com atenção a conversa digitada entre os dois. Reconhece o estilo do Lord. Ele não escolhia as garotas ao acaso. Preferia as inteligentes e gostava de seduzi-las profundamente antes de fazer o que fazia. Lord só destruía o que lhe pertencesse. Vladimir conhece o local do encontro. Assim que confirma o horário no meio da conversa interceptada, reúne algumas coisas e sai para a rua.

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Exposição

Posted in Relances on setembro 13th, 2008 by radames

Em uma rua movimentada, no início da noite, forma-se uma aglomeração em torno do corpo. Um homem armado de escopeta cuida do cadáver e mantém os curiosos a distância. O corpo jaz de bruços na calçada. O pescoço virado deixa ver o rosto comprimido contra a sarjeta. A boca aberta e torta, os olhos arregalados. Junto ao corpo uma poça escura de sangue que começa a coalhar.

Um homem de terno escuro e valise de executivo se aproxima da cena. Olha o morto, faz uma cara de nojo e cospe no chão. Depois se retira apressado.

Uma senhora vem de braço dado a uma moça:

— Virgem Maria. Dá pra ver na cara dele que era um homem perigoso. Ainda bem que nestas horas a polícia está de prontidão. Vamos embora, filha. Vamos, vamos.

Um velho pergunta ao da escopeta:

— Traficante? … É isso aí. Traficante tem que morrer.

Um mendigo que assistia a tudo sentado sob uma marquise próxima levanta-se com seus trecos e vem até perto do cadáver. Dá uns tapinhas de leve nas costas do morto:

— Deixe pra lá. Descanse em paz, viu?

O mendigo pega umas folhas de jornal que trazia consigo e estende sobre o cadáver escondendo dos curiosos a visão triste da morte.

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Zero zero

Posted in O homem de ouro on setembro 10th, 2008 by radames

Paranhos sai do carro, apruma a gravata, abotoa o paletó e segue na direção do palácio. Sozinho, Paranhos sobe a longa escadaria. No topo da escadaria um segurança o cumprimenta e abre a porta dando-lhe passagem. Com elegância no seu terno preto de casimira inglesa, Paranhos caminha pelo saguão. Uma música suave e orquestral preenche o ar. O sapato preto e lustroso de Paranhos bate forte no piso de mármore. No final do saguão outro segurança indica o caminho a Paranhos que se dirige com passos decididos a uma escada espiral. Majestosa, a escada leva Paranhos ao pavimento superior. Paranhos toma a direção de um longo corredor. No final do corredor Paranhos encontra um oficial militar que o cumprimenta e abre-lhe uma porta. Paranhos atravessa a porta que logo é fechada atrás dele e caminha por um gabinete luxuoso onde outro oficial parece esperá-lo. Os dois se cumprimentam e o oficial o conduz a uma grande porta de duas folhas. O oficial abre as folhas e Paranhos entra num gabinete enorme e finamente decorado. O oficial deixa Paranhos e sai, fechando a porta. Não há ninguém no gabinete, além de Paranhos. Ele percorre despreocupadamente o gabinete. Uma grande mesa de reuniões. Um conjunto estofado para conversas informais. Uma escrivaninha imponente, muitos objetos de arte. Atrás da escrivaninha, a bandeira do Brasil. Na parede, as armas da República. Paranhos ouve uma descarga de vaso sanitário em algum lugar perto dali. Paranhos se detém na observação de alguns quadros. Uma porta se abre às costas de Paranhos.
- Boa tarde, Paranhos. Como vão as coisas?
- Quentes, senhor. Como sempre.
- Aceita um charuto? Paranhos escolhe um charuto de dentro da caixa. O homem acende um também e senta-se na escrivaninha.
- Bem, Paranhos, sente-se aí. Deixe-me mostrar-lhe os motivos que me levaram a chamá-lo aqui.
O homem dá umas baforadas. Paranhos o acompanha. O homem tira da gaveta uma pasta e distribui o conteúdo sobre a escrivaninha.
- As fotos são de algumas pessoas que estão nos trazendo algum constrangimento. Gostaria que você nos ajudasse a encontrar uma solução para esses indivíduos desagradáveis, Paranhos. Sua longa ficha de serviços o habilita para esta missão.
- Sinto-me honrado, senhor, mas a tarefa é árdua.
- Você terá todo nosso apoio. Terá carta branca para agir. Não lhe faltará nada. Nosso futuro está em jogo.
Paranhos dá uma longa baforada.
- Sim, mas …
O homem se levanta.
- Preparamos uma rede de apoio para atuar ao seu lado. Quero que você tenha uma idéia disso agora mesmo.
O homem aciona o interfone.
- Quer vir até aqui, sim?
Logo, o oficial que recebera Paranhos entra na sala.
- Leve o Paranhos para conhecer nossas instalações.
- Sim, senhor. Queira me acompanhar, senhor Paranhos.
Paranhos e o oficial saem do gabinete juntos e vão até o elevador. O oficial abre uma tampa no painel do elevador e aperta uma tecla secreta. O elevador desce. Após o segundo subsolo o elevador continua descendo. Paranhos:
- Não sabia que tínhamos um terceiro subsolo.
- Quase ninguém sabe, Paranhos.
A porta do elevador se abre. Paranhos se depara com uma imensa sala onde se distribui uma enormidade de aparelhos eletrônicos. Ao fundo, na parede um imenso mapa do Brasil repleto de marcações luminosas.
- Vamos falar com nosso cientista-chefe.
Os dois caminham até um senhor grisalho que usa guarda-pó branco. O cientista:
- Boa tarde, senhor Paranhos. Já o esperávamos. Aqui, como o senhor mesmo pode ver fica nosso centro tecnológico de apoio à missão que lhe foi destinada.
Paranhos demonstra fascínio pelo local. Anda pela sala observando com atenção máquinas sofisticadas e estranhas. Pára diante de uma impressora que emite um relatório. O cientista:
- A todo instante recebemos informações que alimentam nossos computadores. O computador faz uma triagem e cruza todas as informações. Depois analisa as probabilidades e nos fornece um relatório detalhado. Se você quiser saber algo sobre alguém pergunte ao computador.
- Fascinante.
Paranhos passa diante de uma parede repleta de monitores de vídeo. Em cada um transcorre uma cena diferente. Pessoas que andam na rua, reuniões de pequenos grupos, pessoas dentro de casa. O cientista:
- Através desses monitores acompanhamos os movimentos do inimigo. Nenhum deles sabe que é vigiado. Desta forma traçamos o mapa da rede de ligações entre eles.
Paranhos caminha mais um pouco. Detém-se em observar uma peça que o intriga. Assemelha-se a um capacete de aço de onde saem muitos fios na direção de um aparelho cheio de comandos. Paranhos:
- E isto?
- Isto faz parte de uma experiência que estamos realizando na tentativa de obter informações rápidas e confiáveis de inimigos relutantes. Usa-se na cabeça do inimigo.
Paranhos coloca a peça na própria cabeça como a um chapéu.
- Assim? Que tal estou?
- O senhor tem ótimo senso de humor, senhor Paranhos. A sua grande sorte é que o aparelho não estava ligado. Mas deixe-me entregar-lhe um pequeno souvenir que fizemos aqui.
Os dois vão até uma mesa repleta de engenhocas. O cientista entrega a Paranhos um telefone celular.
- É para o senhor.
- Obrigado, mas já tenho celular.
- É parecido, Paranhos, mas não é igual. Vai ser útil no teu trabalho. Com o botão nesta posição temos áudio. Mudando para o outro lado temos um gerador de tensão. O fone de ouvido se transforma num eletrodo. Basta aplicar no corpo do inimigo e ele receberá descargas estonteantes. Quem tiver algo para dizer ficará bastante estimulado a se aliviar da informação.
- A tecnologia não pára de evoluir.
O oficial que trouxe Paranhos vem até ele.
- O chefe quer vê-lo agora, senhor Paranhos.
Os dois sobem ao gabinete do chefe:
- Espero que tenha gostado do que viu. É apenas uma parte do que estamos fazendo.
O homem vai até a janela e chama Paranhos.
- Observe, Paranhos, lá na praça nossa bandeira verde-amarela tremulando, símbolo solene da grandeza de nossa Pátria. O futuro de nossas crianças está ameaçado. Milhões esperam atônitos atitudes enérgicas de homens valorosos como você.
O homem coloca a mão no ombro de Paranhos:
- O que me diz?
- Pode contar comigo, senhor.
- Eu sabia. A partir de hoje você é um dos nossos homens de ouro.
Paranhos cumprimenta o homem e se prepara para sair.
- Só mais uma coisa, Paranhos. Acrescentamos o zero zero ao seu código de identificação. Sei que usará o privilégio com responsabilidade.
Paranhos desce a escadaria com os olhos voltados para a bandeira do Brasil. Sente uma emoção se apoderando dele.

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