O colecionador 1/2

Posted in O homem de ouro on setembro 17th, 2008 by radames

Paranhos percorre os corredores do Instituto Médico Legal acompanhado de um amigo. Paranhos:
— Você sabe. Todo mundo tem o seu hobby. Uns colecionam selos, outros carteiras de cigarro. Os mais favorecidos colecionam carros antigos. Veja a criançada de hoje. São loucos por figurinhas. Sabe esses álbuns que tem por aí? É figurinha de craque de futebol, personagem de programa de televisão e por aí vai..
— É. Eu sei. Eu também tenho a minha coleção.
— Pois é isso aí. Mas o que eu quero mostrar pra você é a minha coleção particular.
— Fica aqui no IML?
— Exato. Eu queria deixar em casa, mas o custo da instalação toda ficaria muito alto, entende?
— Que instalação?
— A instalação frigorífica. Veja, estamos chegando.
Os dois entram numa sala fria com forte iluminação fluorescente. Tudo muito limpo, asséptico. Paranhos:
— Chegamos.
— Não estou entendendo.
— Vou lhe mostrar.
Paranhos vai até a parede oposta. Puxa alguns gavetões. Vem um ar frio de dentro dos gavetões. Paranhos:
— Este aqui peguei faz uns dois anos. Foi difícil. Me custou muita procura, muita luta.
— Espere aí. Você quer dizer que…
— Exatamente, meu caro. Aqui está minha coleção de cadáveres.
— Mas estes gavetões estão todos cheios?
— Não, não. Alguns deles ainda aguardam morador. Você sabe, tem figurinha difícil em todo álbum. Aqui, por exemplo. Este gavetão faz tempo que está aguardando. Tem até a plaquinha com o nome. Está vendo?
— Mas isto tudo não é do IML?
— É e não é, sabe? O pessoal aqui é meu amigo. Fica assim tipo um empréstimo das instalações. Deixe eu lhe mostrar uma das figurinhas mais difíceis da coleção. Tá aqui, olhe. Veja a marca da bala. Certeira no coração.
— Confesso que estou surpreso.
— Aqui está o trabalho de minha vida.
Paranhos passeia pela sala olhando os gavetões. Pára diante de alguns. Paranhos:
— Sabe, dá até uma emoção. A propósito, você falou que também é colecionador.
— É verdade.
— E o que você coleciona?

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Reality show 1/3

Posted in El justicero on setembro 15th, 2008 by radames

Sábado, 01:00
Vladimir observa Lord pendurado pelo pé como um animal no matadouro. A garota ajoelhada no canto do quarto grita histérica:
- Acabe com ele agora.
Vladimir olha para a faca sobre a mesa.

Seis horas antes
Sexta-feira, 19:00
Vladimir senta na escrivaninha e se põe a analisar as informações mostradas nas três grandes telas colocadas lado a lado para formar um semicírculo. Diante dele, os três monitores exibem uma profusão de janelas. Uma webcam capta alguém se movimentando no quarto. Em uma das janelas corre a conversa de duas pessoas em um mensageiro instantâneo. Outra janela mostra listas de arquivos sendo transferidos pela rede. Vladimir acompanha o reality show que montou aos poucos e com muita paciência. Um reality show especial onde os participantes não sabem que são observados. Pelo cabo azul chegam até Vladimir as intimidades de pessoas espalhadas pelo mundo virtual. Conversas soltas, imagens comprometedoras, trocas de arquivos, pequenas fofocas, confissões íntimas, tudo ao alcance de um clique de Vladimir que acompanha os dados sem um apetite especial. A maior parte do que vê são miudezas que não lhe interessam porque hoje ele quer fisgar um peixe grande.

Sexta-feira, 20:05
Um alerta sonoro chama a atenção de Vladimir. O nick Princesa entrou na sala de chat. Vladimir abre outra janela e passa a capturar o conteúdo reservado digitado por Princesa. Vladimir dá um tempo e entra na sala com o apelido Laura.
Laura fala reservadamente para Princesa: Olá, amiga, tudo bem?
Princesa fala reservadamente para Laura: Tudo bem, linda. E com você?
Vladimir conduz a conversa com sua isca simulando amenidades.
— Laura fala reservadamente para Princesa: Vai sair hoje, amiga?
— Princesa fala reservadamente para Laura: Sim, vou.
— Laura fala reservadamente para Princesa: Então hoje é o grande dia.
— Princesa fala reservadamente para Laura: Acho que sim Vou conhecer ele hoje.
— Laura fala reservadamente para Princesa: Legal. Espero que dê tudo certo.
— Princesa fala reservadamente para Laura: Tomara. Estou muito ansiosa.
— Laura fala reservadamente para Princesa: Não se preocupe. Vai fundo.
— Princesa fala reservadamente para Laura: E se ele não for aquilo que eu imagino?
— Laura fala reservadamente para Princesa: Seja otimista, amiga. Nada é o que parece.
— Princesa fala reservadamente para Laura: Estou com um pouco de medo.
— Laura fala reservadamente para Princesa: Seu anjo da guarda vai proteger você, sabia?
Vladimir percebe que entra na sala o nick Lord of Darkness.
— Laura fala reservadamente para Princesa: Bem, amiga, vou deixar você a vontade com seu lord.
— Princesa fala reservadamente para Laura: Obrigada, querida. Depois lhe conto tudinho como foi, ok?
Vladimir passa a acompanhar a tela que mostra a conversa de Princesa com Lord of Darkness. A amizade com a garota tinha lhe rendido a possibilidade de plantar um sniffer no computador dela. Rastrear diretamente o Lord era quase impossível. Ele não deixava rastros digitais. Vladimir acompanha com atenção a conversa digitada entre os dois. Reconhece o estilo do Lord. Ele não escolhia as garotas ao acaso. Preferia as inteligentes e gostava de seduzi-las profundamente antes de fazer o que fazia. Lord só destruía o que lhe pertencesse. Vladimir conhece o local do encontro. Assim que confirma o horário no meio da conversa interceptada, reúne algumas coisas e sai para a rua.

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Exposição

Posted in Relances on setembro 13th, 2008 by radames

Em uma rua movimentada, no início da noite, forma-se uma aglomeração em torno do corpo. Um homem armado de escopeta cuida do cadáver e mantém os curiosos a distância. O corpo jaz de bruços na calçada. O pescoço virado deixa ver o rosto comprimido contra a sarjeta. A boca aberta e torta, os olhos arregalados. Junto ao corpo uma poça escura de sangue que começa a coalhar.

Um homem de terno escuro e valise de executivo se aproxima da cena. Olha o morto, faz uma cara de nojo e cospe no chão. Depois se retira apressado.

Uma senhora vem de braço dado a uma moça:

— Virgem Maria. Dá pra ver na cara dele que era um homem perigoso. Ainda bem que nestas horas a polícia está de prontidão. Vamos embora, filha. Vamos, vamos.

Um velho pergunta ao da escopeta:

— Traficante? … É isso aí. Traficante tem que morrer.

Um mendigo que assistia a tudo sentado sob uma marquise próxima levanta-se com seus trecos e vem até perto do cadáver. Dá uns tapinhas de leve nas costas do morto:

— Deixe pra lá. Descanse em paz, viu?

O mendigo pega umas folhas de jornal que trazia consigo e estende sobre o cadáver escondendo dos curiosos a visão triste da morte.

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Misteriosos caminhos da justiça

Posted in El justicero on setembro 8th, 2008 by radames

Quando Vladimir acordou já havia anoitecido. Vladimir passou a noite anterior em claro e mesmo tendo dormido durante todo o dia se sentia exausto. Vladimir lavou o rosto e evitou olhar para si mesmo no espelho do banheiro. Em sua cabeça borbulhavam os fatos da noite anterior. Como em outras vezes em que se sentiu confuso, Vladimir começou a pensar na sua visão particular da Justiça. Havia três dimensões: a divina, a formal e a informal. A justiça divina é infalível, pode tardar, mas não falha. A justiça formal dos tribunais tarda e falha. E a justiça informal das pessoas que a praticam por sua própria conta? Em alguns casos a justiça dos homens nada mais é do que a manifestação da justiça divina. Sim, a justiça de Deus acontece por caminhos misteriosos. Nada ocorre por acaso e não é possível permanecer impassível diante da podridão do mundo. Lá fora já anoiteceu e a feras estão soltas. Não existe lugar seguro nesta metrópole corrompida. Na noite anterior, Vladimir deu um passo que o coloca em um caminho sem volta. Quando voltou ao quarto Vladimir começou a organizar suas coisas que tinha deixado espalhadas ao chegar em casa. Com método, inspecionou suas coisas em busca de indícios da noite anterior. Tudo parecia em ordem, exceto a gota escura em um dos sapatos. Não, não tinha sido uma ação impecável. Ele precisava refinar seus métodos ou poria tudo a perder. Não importa que a verdade esteja do seu lado, não importa o quanto sejam justas suas incursões. É preciso mais do que isso: é fundamental que as ações sejam executadas com exímia habilidade e planejamento. Uma gota de sangue pode pôr em risco um esforço prolongado. Ele precisa melhorar seu controle, precisa controlar as emoções, não pode entrar no jogo do outro. Porque ele não é o outro e não pode se nivelar com ele. Vladimir precisa evoluir, precisa se superar em todos os sentidos, caso contrário não conseguirá cumprir a sua missão.

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