VENCER
NA VIDA. De todas
as minhas ilusões esta foi a mais ridícula e obtusa.
Quantos agora não se engalfinham nas disputas mais cerradas
para realizar este sonho vão que para mim faz parte do
passado e não se concretizará. Quem me viu, quem me vê.
Como tantos que tanto prometem na juventude e se desenham
aos olhos de seus entes queridos como o vencedor dos
vencedores eu mesmo acreditava em mim. Vencer na vida
era poder dizer: 'Você sabe com quem está falando?' Era um
cargo de dar inveja, um carro de tirar o fôlego, uma mulher
de parar o trânsito. Hoje não há vitórias. Não há
horizontes. Por que frincha, por que porta me perdi desse
paraíso que é ser pessoa comum? Quem me viu, quem me vê.
Todos que me cercavam apostavam no meu futuro de jovem
promissor. Hoje me consideram um corpo estranho no seu mundo
de verdades saudáveis. Me olham de esguelha porque não
levo cinzelado na fronte o vasto código de certezas que é
bom para as pessoas de bem. Vencer na vida. Que
sombra de vitória pode haver para quem se sente inepto para
este tipo de disputa e assume isto como fato consumado? Quem
me viu, quem me vê. Se hoje sou diferente, se desaponto
os que apostaram em mim, não foi por gosto ou pirraça.
Acordei. Aconteceu. Deu no que deu. Vencer na vida. Já
foi o tempo em que se justificava ser apenas promissor. Eu
devia estar completo, servir de exemplo, mas minha vocação
foi sempre para tudo e nada. Me desculpem. Não venci. Não
vencerei.
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