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Cosmogonia |
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momento primordial o Divino que pairava sobre o Nada olhou para a palma de sua mão e sentenciou: 'Expande-te, organiza-te segundo minha vontade, para meus fins, tudo conforme minha lei que ora te dou.' E soprando sua vontade sobre sua palma fez-se do Nada na sua palma uma bolha infinitesimal de absoluto caos. E como no sopro da vontade do Divino se estabelecera a existência do tempo foi num tempo infinitesimal que a bolha de caos se expandiu explosivamente na direção do infinito. E do que era caos absoluto emergiram coisas diferenciadas que se atraem e repelem segundo as leis sopradas pelo hálito do Divino. Começou assim a longa história da organização das coisas: por uma bola de fogo que vinda do Nada se expande para o infinito. A contagem do tempo se distanciou do momento original. Surgiram coisas como a matéria e a energia. A bruma cósmica incandescente se adensou originando bolas rubras a girar em torno de si e em torno de outras. Fez-se a luz e o som, a terra e o fogo, a água e o ar. Estando formados os corpos celestes, num deles, cuja crosta já não ardia, recoberto por mares estéreis que cingiam continentes de terra escalavrada resolveu o Divino pousar sua mão para que se desse o segundo ato da criação. E o verbo divino rugiu sobre os mares: ' Reproduze-te, modifica-te.' Isto dito, a mão do Divino inoculou nas águas uma molécula que tragou a matéria próxima unindo pedaços esparsos numa ordem rígida e liberando no final outra molécula igual a si. Assim nasceu a vida que se organizou mais e mais, de mutação em mutação, crescendo em número, variedade e complexidade. E quando os seres vivos dominaram as águas passaram à terra e também ao ar e toda crosta da esfera ficou habitada. No terceiro ato da criação estando um símio a espreita da caça deslizou ao seu lado a sombra do Divino e o verbo sibilou como brisa leve na planície onde habitava o símio: ' Doravante desejarás ser o que sou. Lego-te o desejo de atingires a consciência de tua natureza e o desejo de suplanta-la, mas não os meios. Vai, modifica o mundo norteado pelo sentido que tu mesmo darás a tua vida. Buscarás tudo o que for dado a tua razão saber. Para o que tua razão não alcança e teus sentidos não percebem criarás tuas próprias conjeturas que nunca serão confirmadas mas que usarás como base à tua ética ou como mera literatura. Nada saberás de mim, mesmo que me invoques ou renegues. Agora estás no mundo com a consciência de si.' Isto dito, nada mais falou. O símio que permanecia encolhido atrás de um arbusto, vendo que a caça o percebera e já insinuava a fuga teve o ímpeto de catar uma pedra ao chão e arremessa-la contra a caça em fuga. Atingiu-a, debilitando-a com o golpe, o suficiente para captura-la. Com a caça dominada entre os braços o símio guinchava de satisfação enquanto a sombra do Divino se dissipava na planície. |
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