|
fonema é a unidade formal inferior da
Fonética. Usamos fonemas com naturalidade em nossa comunicação, mas
é difícil dizer em que medida os falantes têm uma consciência
natural deles. O que se pode dizer é que essa consciência se firma
principalmente durante a alfabetização em sistemas fonológicos de
escrita. É durante a aquisição da escrita que nos aproximamos dos
fonemas. Como nos sistemas fonológicos o grafema geralmente
corresponde a um fonema, o falante alfabetizado passa a distinguir
com clareza essas unidades mínimas da fala. A consciência dos
fonemas requer, portanto, aprendizado cultural. A história da
escrita nos mostra o longo e árduo caminho percorrido até se chegar
a sistemas consistentes de escrita fonológica. Isso nos dá uma idéia
do esforço envolvido no processo de compreensão do fonema.
Fonema é o módulo abstrato mínimo da fala em
nível de significante. É o átomo de construção do significante do
discurso.
Possibilidades de isolamento
Para verificar o aspecto mínimo das unidades
formais da lingüística costumamos recorrer à segmentação. Alguns
fonemas podem ser isolados com facilidade, ou seja, podem ser
pronunciados entre duas pausas. Exemplos são as vogais, que em nossa
língua, podem constituir palavras, como é o caso de: a, é,
e ou o. As consoantes, ao contrário, precisam ser
pronunciadas junto com vogais e não há como isolá-las entre duas
pausas de pronúncia. Se quisermos explicar o que representa o
grafema p, por exemplo, teremos que citar ocorrências
do fonema em segmentos como pá, pé, pi, pó
e pu. É certo que existem consoantes que podem ser
pronunciadas isoladamente como /s/ ou /f/. O resultado, porém, é
acusticamente diferente do que se registra quando são pronunciadas
na adjacência de uma vogal. Isso nos leva a uma primeira
constatação: os fonemas são mínimos, mas nem todos ocorrem
isoladamente. A possibilidade de segmentação do discurso em fonemas
é parcial. Certos fonemas não podem ser pronunciados isoladamente,
sem o apoio de outro fonema adjacente. O que nos dá a certeza da
existência do fonema nesses casos, são as possibilidades de
comutá-lo com outros fonemas ou de encontrá-lo em outros contextos.
Entidade abstrata
O fonema não é um som, mas uma classe de
sons da fala. Estes são audíveis, os fonemas não. Fonemas são
conceitos abstratos inferidos da percepção de características comuns
em grupos de sons da fala. Podemos compreender melhor essa
característica dos fonemas apelando para uma experiência. Digamos
que reunimos alguns falantes e a cada um damos cópia de um texto
simples para ser lido em voz alta. Um ouvinte que não vê os falantes,
apenas ouve o que dizem, relata o que ouviu. O resultado das
descrições pode ser parecido com o seguinte:
Uma menina falou lentamente, entre vários
titubeios próprios de quem está aprendendo a ler, a frase “As armas
e os barões assinalados”.
Um homem de voz grave leu com solenidade a frase
“As armas e os barões assinalados”.
Uma mulher de voz aguda leu com emoção, em alto e
bom som a frase “As armas e os barões assinalados”.
Um jovem leu rapidamente em tom burocrático e em
volume baixo a frase “As armas e os barões assinalados”.
Os sons da fala apresentam uma grande
variedade de características, que combinadas entre si resultam em
uma infinidade de maneiras diferentes de proferir um mesmo
enunciado. Algumas dessas características como o timbre da voz,
altura, volume e duração, em conjunto, definem o que chamamos de
entoação do discurso. Os fonemas, porém, não são definidos por essas
características. São os fonemas que nos permitem reconhecer a mesma
frase na fala das várias pessoas que participaram da experiência. Há
uma abstração considerável no reconhecimento de fonemas. Para
chegarmos a eles temos que expurgar todas as características
circunstanciais dos sons da fala e nos determos no essencial, no
conjunto necessário e suficiente de características que estabelecem
os fonemas.
Delimitação metonímica
Diferenciamos um fonema de outro pelas suas
propriedades acústicas. O ouvido tem a capacidade de identificar
qual fonema está associado a determinado som da fala. Mas como
delimitar os fonemas de forma rigorosa sem ter de contar apenas com
o apuro do ouvido? Os foneticistas recorrem a duas soluções que
chamaremos metonímicas porque não delimitam o fonema em si, mas o
que o circunda.
A primeira solução consiste em analisar o
espectrograma do som. As ondas sonoras podem ser representadas em
gráfico, com o auxílio de aparelho próprio, o espectrógrafo, que
registra características, tais como amplitude e freqüência do som ao
longo do tempo. O registro em gráfico das variações das propriedades
do som no tempo constitui o espectrograma. Sons de um mesmo fonema
apresentam espectrogramas similares.
A segunda solução é delimitar o fonema a
partir das características de sua produção no aparelho fonador.
Podemos delimitar um fonema descrevendo com rigor a forma como ele é
gerado.
Delimitação por idioma e universal
Uma coisa é delimitar os fonemas utilizados
em um idioma específico, outra é buscar uma delimitação universal
que considere todas as possibilidades de fonemas que existem nas
línguas do mundo ou que possam ser gerados pelo aparelho fonador
humano. As delimitações por idioma proliferaram ao longo da história
principalmente com vistas ao estabelecimento de sistemas fonológicos
de escrita. As delimitações universais, por outro lado, são
cultivadas principalmente nos círculos de estudos lingüísticos. A
delimitação universal mais importante é a da Associação Fonética
Internacional.
Universal como conjunto máximo.
Quando se inventaria os fonemas usados em um idioma específico, a
contagem costuma oscilar entre trinta ou quarenta itens. Por outro
lado, o número de fonemas considerado pela Associação Fonética
Internacional é muito maior. Isso quer dizer que em cada idioma
utiliza-se um conjunto de fonemas bem menor do que permitem as
possibilidades do aparelho fonador. Cabe à delimitação universal
esgotar as possibilidades de fonemas. A princípio, os fonemas de
qualquer idioma são um sub-conjunto do conjunto de fonemas da
delimitação universal.
Comutação plena. Em determinado
idioma, dois fonemas distintos segundo a API podem ser usados com a
mesma função. Ou seja, naquele idioma os falantes usam
indiscriminadamente ora um, ora outro nos mesmos contextos. Nesse
idioma, os dois fonemas universais têm o mesmo valor. Os falantes
não fazem distinção entre um e outro. Podemos dizer que essas duas
classes de sons são variantes comutáveis naquele idioma. Esse tipo
de relação costuma ocorrer entre fonemas universais similares, que
se diferenciam por alguma sutileza.
Propriedades dos fonemas
Vamos imaginar um código hipotético em que
as unidades de significação são colares de contas coloridas.
Dispomos de um número reduzido e fixo de tipos de contas. As contas
de um mesmo tipo não são todas iguais. Umas são maiores, outras
menores, apresentam diferenças sutis na forma e a cor pode variar um
pouco para um mesmo tipo. Mas o importante é que a cor de cada tipo
contrasta com as dos demais de forma inequívoca, não deixando
dúvidas a quem observa sobre o grupo a que a conta pertence.
Combinando as contas de diferentes maneiras produzimos uma
infinidade de colares com tamanhos diferentes, cada um dotado de um
significado próprio. A conta colorida não possui significado nesse
código. O significado está ligado aos colares. Assim ocorre com os
fonemas. Eles são a matéria prima para a produção de segmentos de
discurso dotados de significação. Cada idioma considera um número
fixo e reduzido de fonemas que funcionam como átomos da construção
dos enunciados. Fonemas não portam significado. É a combinação
linear de fonemas em segmentos maiores que gera unidades de
significação.
No código hipotético dos colares de contas
coloridas é possível usar qualquer tipo de combinação entre contas.
O mesmo não ocorre com a língua. Existem inúmeras limitações para a
combinação de fonemas. Se programássemos um computador para gerar
segmentos com fonemas da língua portuguesa sem impor nenhuma
restrição à máquina obteríamos as palavras da língua portuguesa,
além de um número muito grande de segmentos como:
Brqsj, auiofdj, mnxts.
A combinação de fonemas ao acaso produz
segmentos inviáveis, que não têm chance de se converter em palavras
do idioma. Analisando-os começamos a entender as regras que regem a
combinação de fonemas.
Existem regras ligadas à pronúncia. A
pronúncia de um segmento só é possível se os fonemas se organizarem
em sílabas, pois estas são a unidade mínima da pronúncia. A geração de
sílabas tem suas regras. Por exemplo: a sílaba apresenta uma e só
uma vogal ou, então, uma consoante com função de vogal, etc.
Existem regras ligadas aos hábitos fonéticos
do idioma. Em português, por exemplo, temos uma resistência contra
sílabas travadas no final da palavra, aquelas que terminam em
consoante como em
York, club ou hip-hop.
Enfim, o estudo das regras de combinação
de fonemas em um idioma é uma área ampla ainda pouco explorada
pelos lingüistas.
Fonemários Em cada idioma
encontramos um conjunto reduzido e fixo de fonemas que chamaremos de
fonemário. Todo fonemário de idioma está integralmente contido no
fonemário universal. Este, por sua vez, deve encerrar todas as
possibilidades de fonemas das línguas conhecidas. A delimitação de
um fonemário universal realmente completo é uma questão ainda a ser
comprovada, mas temos de reconhecer a eficiência do fonemário da
API.
A formação de um fonemário de idioma é
regida por princípios de eficiência e economia. Um fonemário deve
ter um número razoável de fonemas que permita gerar sem problemas os
enunciados do idioma. Por outro lado, o número não deve ser
exagerado, pois isso acarretaria em maior esforço para a aquisição
do idioma. Outra boa razão para limitar o número de fonemas de um
idioma é a necessidade de manter bom contraste entre os fonemas, o
que facilita sua discriminação. Fazendo uma comparação com o código
dos colares de contas coloridas podemos dizer que as cores das
contas devem ser bem contrastantes, pois é fácil distinguir entre
amarelo e azul, mas é necessário esforço maior para distinguir tons
de amarelo ou de azul. Quanto mais tons, maior a possibilidade de
equívocos. Um fonemário com número elevado de itens exigiria o uso
de fonemas pouco contrastantes entre si, que se diferenciam apenas
por sutilezas, exigindo, portanto, um apuro maior na emissão e
decodificação dos enunciados. A questão da
diferença distintiva Alguns lingüistas
propõem que só tratamos duas classes de sons como fonemas distintos
se comutando essas classes entre si pudermos gerar enunciados
distintos. Por exemplo: a classe dos sons representados por /p/ é um
fonema distinto de /b/ em português porque pato e bato
são palavras com sentidos distintos. Embora tenham várias
características fonéticas em comum, /p/ e /b/ são fonemas distintos
no português porque a diferença entre eles é usada na estrutura do
idioma para criar enunciados distintos.
A tese da diferença distintiva é válida em
muitos casos, mas em algumas situações não pode ser aplicada. Vamos
exemplificar. Na língua portuguesa brasileira usamos os fonemas /á/
e /â/, mas não há nenhuma situação de uso em que a comutação entre
os dois tenha valor distintivo no idioma. Pelo contrário, os dois
fonemas ocorrem em distribuição complementar. Nas situações de uso
em que um ocorre o outro não é usado com certeza. O fonema /â/
ocorre apenas antecedendo consoantes nasais, enquanto que /á/ nunca
ocorre antes de consoante nasal. Os dois fonemas, portanto, não
podem ser comutados em nenhum contexto. Também não podem ser
considerados variantes do mesmo fonema pela impossibilidade de serem
comutados indistintamente.
A questão das dicotomias
Muitos foneticistas propõem um modelo de
especificação para os fonemas de uma língua baseado em dicotomias.
Vamos exemplificar este método analisando o fonema /p/ que pode ser
especificado por algumas decisões dicotômicas. Na dicotomia
consoante/vogal, /p/ é consoante. Na dicotomia nasal/oral, /p/ é
oral. Na dicotomia oclusivo/constritivo, se classifica como
oclusivo. Na dicotomia sonoro/surdo, é surdo. O método das
dicotomias funciona satisfatoriamente para boa parte das
características que especificam um fonema a partir de seu modo de
produção no aparelho fonador. Para algumas situações, porém, não há
como especificar o fonema no modelo dicotômico. Voltando ao exemplo
do fonema /p/: Quanto ao modo de articulação este fonema se
classifica como bilabial. A característica bilabial, no entanto,
pertence um grupo amplo em possibilidades. Se não for bilabial, o
fonema pode ser labiodental, linguodental, alveolar, pós-alveolar,
palatal, velar ou uvular. Não temos aqui duas possibilidades, mas
oito, que se distribuem de forma complementar. Alguns podem propor
uma solução criando dicotomias forçadas do tipo:
bilabial/não-bilabial, labiodental/não-labiodental, etc. Essa
solução, porém, mascara a relação de complementariedade que rege o
grupo bilabial + labiodental + linguodental + alveolar +
pós-alveolar + palatal + velar + uvular.
Quantos fonemas existem?
Fonemas são entidades ligadas a idiomas. O
fonema só existe na estrutura do idioma. Sob essa perspectiva
podemos dizer que o número de fonemas é finito e determinável em um
dado momento histórico a partir do inventário exaustivo dos fonemas
de todos os idiomas conhecidos e considerando que muitos fonemas são
comuns a vários idiomas.
Por outro lado, o número de fonemas
potencias que o aparelho fonador pode gerar é indeterminado e
provavelmente, muito alto. Esse universo amplo de possibilidades só
é parcialmente explorado pelos idiomas do mundo. Seria temerário
dizer que o número de fonemas potenciais é ilimitado, pois à medida
que agrupamos os sons da fala em tipos cada vez mais restritos,
corremos o risco de chegar a um ponto em que o ouvido humano não
conseguirá mais discriminar diferenças tão sutis.
As línguas se estruturam por alguns
critérios de produtividade e economia operando com uma quantidade
restrita, mas eficiente de fonemas. Uma quantidade exagerada
prejudicaria a aquisição do idioma e o seu uso, visto que ampliando
a quantidade, inevitavelmente começamos a operar com fonemas
semelhantes entre si e isso prejudica a discriminação. O número de
fonemas por idioma é otimizado para atender as necessidades de uma
boa comunicação. |