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Ortografia brasileira

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Representação de fonemas

A ortografia brasileira não é biunívoca, ou seja, na maioria dos casos não temos relação um para um bi direcional entre grafemas e fonemas. Em função disso, vamos analisar os casos em que nossa ortografia apresenta peculiaridades na representação dos fonemas.

Grafemas biunívocos

São biunívocos os grafemas b, d, f, p, t e v que usamos para representar os fonemas /b/, /d/, /f/, /p/, /t/ e /v/ respectivamente.

Representação de vogais nasais

As vogais nasais são representadas de duas formas distintas: pelo uso de grafemas com o diacrítico til ou por dígrafos formados por grafema vocálico seguido de n ou m. Veja exemplos na tabela a seguir:

Vogal nasal

Grafema com til

Dígrafos

/ã/

Irmã, cãibra, mãe, mão.

Ambos, âmbito, antes, ânfora.

//

 

Empuxo, êmbolo, ensino, ênclise.

/ĩ/

 

Impróprio, ímpio, interno, índio.

/õ/

Compõe, anões.

Ombro, cômputo, ontem, cônsul.

/ũ/

 

Umbigo, plúmbeo, unção, anúncio.

Observando a tabela, vemos que o til só é usado na representação das vogais nasais /ã/ e /õ/. Nos demais casos, nossa ortografia recorre aos dígrafos. Além disso, a vogal /õ/ só  é representada por õ quando ocorre na seqüência /õy/ como em /prôpõy/, /sifrõys/, /furácõys/ e /pêõys/.

Os dígrafos que representam vogais nasais em nossa ortografia terminam em n ou m. Há uma regra que define quando se usa um ou outro grafema. Quando a vogal nasal antecede /p/ ou /b/, o dígrafo será finalizado com m. Quando a vogal nasal antecede qualquer outra consoante, o dígrafo terminará em n.

Quando a vogal nasal ocorre no final de palavra, podemos ter representação com til (somente para a vogal /ã/), com dígrafo finalizado em m ou, mais raramente, com dígrafo terminado em n. Veja exemplos:

Órfã, irmã, cidadã, cupim, cupom, urucum, lúmen, próton.

Outra peculiaridade na representação de vogais nasais ocorre em palavras como também, convém, compraram e fariam que correspondem a /tãby/, /cõvy/, /cõprárãw/ e /fáriãw/ respectivamente. Nesses casos, a vogal nasal está associada a uma semivogal não representada na escrita.

Representação de vogais orais

A representação de vogais orais não apresenta dificuldades exceto pelos casos em que os grafemas apresentam diacríticos, mas deixaremos para estudar as representações de vogais orais com diacríticos na área referente à acentuação. Aqui nos limitaremos a tratar da representação das vogais por meio de grafemas sem diacríticos. Vemos isso na tabela a seguir.

Vogal oral

Grafema

Exemplo

/á/

a

aberto

/â/

a

mama

/é/

e

era

/ê/

e

espaço

/i/

i

idade

/ó/

o

obra

/ô/

o

ostra

/u/

u

uva

Observe que usamos o grafema a para representar os fonemas /á/ e /â/. Do mesmo modo, usamos e para representar /é/ e /ê/ e o grafema o para representar /ó/ e /ô/. Nosso alfabeto, herdado da escrita romana, não tem grafemas suficientes para uma representação biunívoca das vogais sem recorrer a diacríticos.

Representação de semivogais

Não temos grafemas dedicados à representação de /y/ e /w/, as duas semivogais da nossa língua. Essas semivogais são representadas por e, i, o, u e l, conforme vemos nos exemplos a seguir.

e, Boi, canção, mau, normal.

As regras para representação de semivogais podem ser resumidas assim:

  • Quando /y/ está adjacente a uma vogal oral, será representado por i. Ex.: Foi, sabia.

  • Quando /w/ está adjacente a uma vogal oral, será representado por u ou l. Ex.: Pau, mal.

  • Quando /y/ está adjacente a uma vogal nasal, será representado por e. Ex.: e, porões.

  • Quando /w/ está adjacente a uma vogal nasal, será representado por o. Ex.: Cidadão.

Uma exceção à regra: cãibra.

É comum o uso do l para representar /w/ no final de muitas palavras do nosso idioma. Na variante regional gaúcha, porém, tais palavras são pronunciadas com /l/ em vez de /w/. Por exemplo: A palavra normal é pronunciada /nôrmáw/ na variante culta e /nôrmál/ na variante gaúcha.

Temos um caso particular de representação de semivogal em palavras como: compõem e propõem. São flexões de verbo da terceira pessoa plural, grafadas com um m extra no final da palavra para distinguir da flexão da terceira pessoa singular de mesma pronúncia: (compõe, propõe). Obviamente, essa distinção só ocorre no discurso escrito, não tendo correspondência no discurso oral.

As palavras mau e mal têm a mesma pronúncia na variante culta: /máw/. No entanto, são grafadas de forma distinta.

Representação de /g/ e /j/

O fonema /g/ pode ser representado por g como em garra, golpe e guri, ou então, por gu como em guerra e guincho.

Já o fonema /j/ se representa por j como em jarro, jeito, jirau, joça ou jumento, ou então, por g como em gelo e gibi.

Veja na tabela um resumo dos usos do grafema g.

Quando a sílaba contém

Os fonemas representados são

Exemplos

ga

/gá/

garra

/gâ/

gamo

/gá/

vea

/gâ/

polimico

g + vogal /ã/

/gã/

gânglio

ge

/jê/

gelo

/jé/

germe

/jé/

lido

/jê/

nero

g + vogal /ẽ/

/jẽ/

gente

gi

/ji/

gibi

/jí/

ria

g + vogal /ĩ/

/jĩ/

ginga

go

/gó/

gosma

/go/

governo

/gó/

tico

/gô/

nada

gu

/gu/

guri

/gu/

aurio

g + vogal /ũ/

/gũ/

algum

g + consoante

/g/ + consoante

gleba

grotesco

gnomo

gu + vogal /é/, /ê/, /ẽ/, /i/ ou /ĩ/

/g/ + vogal

guerra

gueto

alguém

guichê

guincho

gu + vogal /á/

/gw/ + vogal

água

gü + vogal /é/, /ê/, /ẽ/ ou /i/

/gw/ + vogal

ungüento

sagüi

O fonema /j/ pode ser representado tanto por g como por j.

Não há uma regularidade que nos ajude a selecionar g ou j para representar /j/. O que sabemos é que o grafema g apresenta algumas limitações para representar /j/. Por outro lado, o grafema j, representa /j/ nos mais variados contextos. De resto, somente o convívio com o idioma para nos orientar a grafia correta. Veja os exemplos:

Jarra, jambo, jegue, jeito, jirau, ia, jornal, juro, jejum.

Germe, geração, gente, gibão, ria, gim.

Representação de /k/

O fonema /k/ pode ser representado pelos grafemas c, k  e q ou pelo dígrafo qu.

O grafema c representa tanto o fonema /k/ como o grafema /s/. A regra para saber qual o valor fonológico desse grafema pode ser resumida assim:

  • Quando o grafema c é seguido pelas vogais /á/, /â/, /ã/, /ó/, /ô/, /õ/, /u/, /ũ/ ou por consoante terá valor fonológico de /k/. Exemplos: casa, campo, cópia, covarde, comprado, cura, cúmplice, cnidário, cancro.

  • Quando c é sucedido pelas vogais /é/, /ê/, /ẽ/, /i/ ou /ĩ/ representará o fonema /s/. Exemplos: cebola, cético, centro, cínico, cinta.

O uso do grafema k na representação de /k/ é pouco comum em nosso idioma. São exemplos: kaiser, kilobyte e know-how. Em função de um esforço pela eliminação do k da nossa ortografia, sua utilização ficou restrita a casos em que a palavra se escreve com k também em outros idiomas como na representação de unidades internacionais de medida (km, kg, etc.) ou palavras derivadas de nomes próprios (kantiano, kafkiano, trotskista, etc.).

O uso do grafema q na representação de /k/ é bastante comum em nossa ortografia. Exemplos: quando, quase, quociente, quotidiano, freqüente.

O dígrafo qu também representa /k/ em nossa ortografia. Exemplos: queijo, arqueiro, querela, quiabo.

Em nossa ortografia, o grafema q sempre ocorre seguido de u ou ü. Nesse caso, o grafema u, ora é mudo, ora não. A regra para saber se o grafema u é mudo ou não é a seguinte:

  • Se após qu vier /á/, /â/, /ã/, /ó/, /ô/ ou /õ/, o grafema u não é mudo. Exemplos: quadra, quântico, quota, quociente.

  • Se após qu vier /é/, /ê/, //, /i/ ou /ĩ/ o grafema u será mudo. Exemplos: quero, queijo, quente, quiabo.

Em nossa língua há uma tendência para suprimir a semivogal /w/ em palavras como quotidiano, quota ou quociente. São palavras que apresentam as seqüências /kwô/ ou /kwó/. Tanto que os dicionários já registram duas possibilidades de pronúncia e grafia para esses casos.

Quotidiano, /kwôtidiânô/, cotidiano, /kôtidiânô/

Quota, /kwótá/, cota, /kótá/.

Quociente, /kwôsitê/, cociente, /kôcitê/.

Representação de /λ/ e /ñ/

Os fonemas /λ/ e /ñ/ são representados de forma biunívoca pelos dígrafos lh e nh, respectivamente. Exemplos: lhama, telha, molhado, enfadonho, aranha,  manha.

Representação de /r/ e /R/

O fonema /r/, em nossa ortografia, é representado pelo grafema r. Por exemplo: caroço, arara, barato. Já o fonema /R/ pode ser representado tanto por r como pelo dígrafo rr. A regra para representar /R/ corretamente é simples. Quando /R/ estiver no início da palavra, usamos r, e nos demais casos usamos o dígrafo rr. Exemplos:

Raiz, rato, repolho.

Carroça, derrapagem.

Representação de /s/ e /z/

O fonema /s/ é o que apresenta mais possibilidades de representação na nossa escrita. Podemos representá-lo de oito formas diferentes, como se vê nesses exemplos: seta, cebola, espesso, excesso, açúcar, dea, auxílio e asceta. Podemos representar /s/ com s, c, ss, xc, ç, sç, x e sc. Infelizmente não há uma regularidade que nos ajude a selecionar o grafema correto para representar este fonema. Somente o convívio com o idioma escrito nos dá a fluência necessária na escolha.

O fonema /z/ é representado pelos grafemas z ou s, como vemos nesses exemplos: azeite, zênite, casa e asilo. Igualmente, não temos regras para selecionar um ou outro grafema na representação de /z/.

Representação de /x/

O fonema /x/ pode ser representado pelo grafema x, ou pelo dígrafo ch. Veja os exemplos:

Xícara, xarope, xereta.

Chuva, chumbo, chave.

Não há regras que nos permitam definir o grafema a ser usado na representação de /x/. Dependemos do convívio com o idioma para fazer a escolha correta.

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