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conceituação de palavra atormenta os
lingüistas, o que pode parecer estranho, afinal, os falantes têm uma
intuição clara do que sejam palavras e conseguem identificá-las
facilmente nas situações em que se exige a segmentação do discurso
palavra a palavra, como ocorre, por exemplo, no discurso escrito.
Mas quando nos debruçamos sobre o estudo da palavra, encontramos
sérias dificuldades para estabelecer uma definição universal, válida
para todas as ocorrências.
A posição que mantemos é a de que essa
definição universal de palavra não é possível. Os falantes conseguem
segmentar facilmente o discurso em palavras porque seguem regras que
fazem parte da sua competência do idioma. Estas regras tratam as
exceções e questões limítrofes da estrutura da língua através de
convenções, o que esconde as dificuldades no trato conceitual da
palavra. De qualquer forma, a seguir tentaremos uma aproximação do
conceito.
Uma constatação importante quando se fala em
palavras é que a consciência das palavras é irrelevante em muitos
contextos de uso da língua. No discurso oral, por exemplo, não é
necessário ter consciência das palavras na maioria dos usos. No
discurso oral, temos uma seqüência contínua de sons, aqui e ali
interrompida por pausas, mas que não correspondem aos espaços
encontrados entre palavras no discurso escrito. A consciência da
palavra, de fato, só é importante em algumas situações específicas.
Vejamos alguns exemplos:
-
Quando o falante está em dúvida sobre o
significado de um enunciado faz perguntas como: O que quer
dizer a palavra tal?
-
As entradas de dicionário são feitas por
palavras.
-
Na escrita, segmentamos o discurso palavra a
palavra.
A partir dessas situações de uso da palavra,
podemos fazer alguns questionamentos.
Como os falantes reconhecem que o segmento
cantar é uma palavra e que cant ou ar não o
são?
Por que o falante pergunta o que é cantar,
em vez de simplesmente indagar o que é cant, uma vez que o
segmento ar é seu velho conhecido de outros verbos? Ou então,
por que os dicionários dão entradas para seqüências como cantar
e não a segmentos como cant?
Como os falantes reconhecem no segmento
matogrosso mais de uma palavra?
A reflexão em torno das perguntas anteriores
nos ajuda a compreender como se forma o conceito de palavra no
idioma.
Forma significativa
Uma das regras aplicadas ao reconhecimento
de palavras é a de que o segmento deve portar significação. Ou de
outra forma: tem que apresentar função semântica. Assim sendo, o
segmento cantar é aceito como palavra porque, entre outras
propriedades, porta um significado.
Alguns podem se opor a essa regra alegando
que no enunciado João e Maria, o conectivo e não porta
significado, mas é considerado palavra em português. Sem dúvida,
palavras como e não portam sentido de maneira semelhante ao
portado por palavras como Maria. Mas os conectivos portam
sentido, sim, porque é o conectivo que agrega a idéia de conjunção
ao enunciado.
Forma livre
Os falantes não perguntam o significado de
cant, provavelmente, porque nunca viram segmentos do mesmo
tipo que cant ocorrerem sem a presença concomitante de um
segmento que o complemente como ar, amos, am,
etc. e por isso consideram que cant sempre deve ser usado
seguido por um complemento, mesmo quando a intenção é buscar o
significado do item no dicionário. A impossibilidade de certos tipos
de segmentos ocorrerem separados uns dos outros é decisiva na
formação do conceito de palavra. No português, temos algumas
combinações que só ocorrem simultaneamente e em ordem definida. Por
exemplo:
Raiz + desinência
verbal
Cant + ar
Muitos lingüistas concordam que o falante
tende a considerar como palavra agrupamentos como os do exemplo
acima, cujas partes não ocorrem separadas. Uma das regras que se
aplica ao reconhecimento de palavras no discurso é a da
independência em relação aos segmentos adjacentes. Em outros termos:
a palavra deve ser uma forma livre. O segmento cant, no
português não é livre, pois sempre aparece no discurso seguido de um
complemento conhecido como desinência. Diz-se que cant é uma
forma presa. Presa a outro tipo de segmento com o qual deve ocorrer
simultaneamente.
Forma mínima
A exigência de portar significado e a regra
da forma livre sozinhas não delimitam a palavra. O segmento
matogrosso, por exemplo, aparece em vários contextos diferentes
e não está preso a nenhum outro tipo de segmento. É uma forma
significativa e livre, mas não é mínima, pois pode ser separada em
dois segmentos menores, mato e grosso, que, por sua
vez, também são formas livres e significativas. Em outras palavras:
matogrosso não é um segmento mínimo.
Temos agora três regras para delimitar
palavras: o segmento deve portar significação, ser uma forma livre e
deve ser mínimo. Muitos lingüistas consideram estas condições
suficientes para conceituar palavra. Em português, a maioria das
palavras pode ser reconhecida pela aplicação das três regras, mas há
casos especiais, como veremos em seguida.
O caso especial dos artigos
No português, há uma classe de palavras, a
dos artigos, que merece atenção especial na nossa conceituação de
palavra. Os artigos ocorrem imediatamente prepostos a um substantivo
e têm por função básica determiná-lo ou indeterminá-lo como na série
seguinte:
O menino
A menina
Um menino
Uma menina.
Um dos modelos para a ocorrência de artigos
é o seguinte:
Artigo +
substantivo.
Em alguns casos, podem ocorrer adjetivos
entre o artigo e o substantivo.
Artigo +
adjetivos + substantivo.
Observando o comportamento dos artigos no
português vemos que se assemelham a um tipo especial de forma presa:
a dos morfemas flexivos, pois só ocorrem seguidos de substantivo,
têm função sintática dedicada e os dois tipos de artigos ocorrem em
distribuição complementar. Os artigos comportam-se tal qual
desinências. Considerando o comportamento sintático dos artigos
somos levados a considerá-los forma presa. No entanto, no português
são tratados como palavras, o que contraria a regra de que palavras
são formas livres. Este exemplo mostra que no português alguns
segmentos são tratados como palavras mas não se encaixam na regra da
forma significativa livre mínima. Na seqüência, vamos considerar
outro caso especial: o das preposições.
Preposições são palavras?
As preposições no português têm
comportamentos sintáticos bastante variados, por isso vamos analisar
um caso particular: o da preposição de, quando usada para
estabelecer relação de posse.
Em português dizemos: Livro de Pedro.
Em latim clássico diz-se: Petrus liber.
Em inglês diz-se: Peter’s book.
Em português, o morfema de, posto
entre livro e Pedro, indica relação de posse. Pedro possui o livro.
Em latim clássico, a relação de posse é
estabelecida pela desinência er, que segue a raiz lib.
Em inglês, a relação de posse é estabelecida
adicionando o segmento s depois da palavra que identifica o
possuidor.
Como se observa, temos três soluções
diferentes para a mesma necessidade lingüística. No latim clássico
não se cogitava em definir o morfema er como palavra, pois
nesse idioma este tipo de ocorrência é classificada como desinência
de caso, uma parte das palavras da classe dos substantivos. Também
não ocorre aos ingleses classificar o segmento s como
palavra.
Já em português, a preposição de é
classificada como palavra, embora tenha um comportamento sintático
similar ao dos segmentos er do latim e s do inglês. A
preposição de, quando usado para estabelecer relação de
posse, tem comportamento sintático típico de desinências.
Prefixos ou formas livres?
Vamos analisar os pares a seguir:
Reitor/vice-reitor.
Moderno/pós-moderno.
Secretário/sub-secretário.
Homem/super-homem.
Nos exemplos dados, percebemos que os
prefixos vice, pós, sub e super têm
função semântica de modificar o substantivo que precedem. Ou seja,
comportam-se como adjetivos e, no entanto, não são reconhecidos como
palavras em português. A situação aqui é oposta à que acontece com
os artigos. Em vez de serem considerados formas significativas
livres mínimas e, portanto, palavras, certos prefixos derivativos do
português são tratados como formas presas.
Ponderações sobre casos limítrofes
Diante dos casos especiais citados
anteriormente, podemos concluir que no português os casos limítrofes
são delimitados por convenções. Talvez, se outras fossem as
circunstâncias, o morfema de pudesse ser considerado uma
desinência de caso e, então, apareceria ligado a um dos substantivos
que conecta. Sob outra perspectiva, talvez certos prefixos
derivativos fossem considerados como palavras e por aí vai.
Os casos limítrofes do conceito de palavra
se caracterizam pela dificuldade de enquadramento. Podemos levantar
alguns argumentos a favor e contra o padrão do português que
estabelece que artigos e preposições são palavras e que alguns
prefixos como vice, pós, sub e super não
são. Vamos citar alguns argumentos a favor, já que argumentos
contrários foram apresentados anteriormente.
A favor dos artigos como palavra podemos
dizer que o uso do artigo é opcional, que se pode agregá-los ao
substantivo ou não. Outra coisa: os artigos são flexionados em
número e gênero, o que é uma característica típica de classes de
palavra. Quando modificamos o substantivo com adjetivos, o artigo é
afastado do substantivo e, isso não é típico de prefixos.
A favor dos prefixos como morfemas presos
podemos dizer que a liberdade do usuário para compor frases ligando
prefixos a substantivos é limitada. Nem toda combinação prefixo +
substantivo é aceitável. Os prefixos não variam em gênero e número.
Em resumo: os casos limítrofes da
delimitação de palavras são resolvidos na estrutura da língua por
soluções convencionais. |