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hamamos de transcrição ao conjunto coeso e
abrangente de regras de escrita que viabiliza a representação
gráfica do discurso oral de pelo menos um idioma.
Transcrições ortográficas
Muitas transcrições foram criadas pelos
povos ao longo da História, quase sempre voltadas para as
necessidades de uma língua específica, tanto que é difícil dissociar,
por exemplo,
a escrita árabe da língua árabe ou a escrita chinesa do idioma
chinês. A transcrição romana, associada ao latim,
originou
várias transcrições contemporâneas distintas, de modo que as regras de escrita do inglês
diferem bastante das usadas em português, embora ambos os idiomas
tenham adotado como ponto de partida as regras da escrita romana. Em
princípio, um sistema de escrita não se vincula necessariamente a um
idioma, ou mesmo a um país que adota determinado idioma, mas na
prática, é difícil escrever um discurso criado em um idioma, usando
as regras ortográficas de outro. Vamos exemplificar:
I love you.
O texto acima foi escrito segundo as regras
ortográficas do inglês e corresponde à frase:
/áy-lóv-yu/
Se o texto fosse lido seguindo as regras
ortográficas do português o resultado seria:
/i-‘ló-ve-yôw/
Embora ingleses e brasileiros usem um
conjunto semelhante de grafemas, o valor fonológico que cada grafema
assume nas duas ortografias difere sensivelmente. Exemplo é o
grafema i que na ortografia inglesa pode funcionar como
dífono e representar /áy/. Na ortografia brasileira, i nunca
funciona como dífono e representa preferencialmente a vogal /i/.
Chamamos de transcrição ortográfica, ou
simplesmente ortografia, a transcrição ligada a um idioma específico
que é oficial para a representação escrita desse idioma. Temos que
levar em conta alguns casos especiais nessa definição. Há países que
adotam um idioma comum, mas possuem transcrições ortográficas
distintas. É o que ainda acontece, por exemplo, nos países de língua
portuguesa. Também ocorre de um mesmo país apresentar vários
dialetos, mas uma só ortografia.
Transcrições biunívocas
As transcrições ortográficas em uso na
atualidade são resultado de uma evolução histórica da qual
participaram inúmeros
agentes. São obra coletiva, resultado de muitas
intervenções com índoles variadas ao longo dos anos. Os lingüistas
encontram dificuldades para usar transcrições ortográficas nas
descrições científicas da língua. São dificuldades variadas e
podemos citar só como exemplo algumas que ocorrem nos sistemas
fonológicos de escrita como: ausência de biunivocidade entre grafema
e fonema; presença de dígrafos, dífonos e grafemas mudos; regras
pouco racionais e cheias de exceções, etc. Essas dificuldades não são intransponíveis,
mas levam a uma considerável perda de produtividade durante os
estudos e, por isso, surgiram propostas de transcrições biunívocas.
No estágio atual de evolução da escrita, as
transcrições biunívocas circulam apenas nos ambientes de estudo da
língua como é o caso deste nosso trabalho. Uma transcrição biunívoca
é aquela que, grosso modo, poderia ser entendida pelo senso comum
como uma escrita em que se escreve como se lê.
O sonho de escrever como se lê é antigo e,
provavelmente, já foi acalentado por todos que algum dia se
digladiaram com o emaranhado de regras confusas das transcrições
ortográficas. No entanto, não é questão pacífica a definição dos
parâmetros que caracterizariam uma transcrição biunívoca ideal. Não
há acordo sobre que níveis de correspondência entre discurso escrito
e falado seriam suficientes para caracterizar uma transcrição
biunívoca. Só para mostrar a dimensão da polêmica, vamos apresentar
alguns questionamentos que envolvem transcrições biunívocas:
-
A transcrição será otimizada para um idioma
específico ou pensada para atender a vários idiomas?
-
Transcrições biunívocas devem ser pensadas
para substituir as ortografias tradicionais no futuro?
-
Faz sentido segmentar os enunciados palavra a
palavra, já que no discurso falado isso não acontece e, muitas
vezes, a adjacência dos segmentos produz sínteses não previstas
pela escrita segmentada?
-
Deve-se marcar a separação silábica na
escrita?
-
Acentos de intensidade, tom e duração devem
ser marcados na escrita?
-
Faz sentido distinguir variantes de fonemas
se isso não for relevante à compreensão da mensagem?
-
Variantes de pronúncia devem ser registradas
ou substituídas pela pronúncia padrão?
-
Como representar fonemas que não existem na
língua quando da citação de estrangeirismos?
Os lingüistas têm dado respostas variadas a
essas perguntas. Em função disso, têm surgido várias propostas de
transcrição biunívoca, mas interessa-nos aglutiná-las em dois pólos.
De um lado, as transcrições biunívocas focadas em um idioma
específico e, de outro, as universais, que tentam dar conta de todo
e qualquer idioma.
A transcrição da IPA
A IPA (International Phonetic Association)
desenvolveu uma transcrição biunívoca universal que vem sendo
aperfeiçoada continuamente. Dessa transcrição faz parte o AFI
(Alfabeto Fonético Internacional), ou IPA (International Phonetic
Alphabet), cuja última atualização data de
1996. Pode-se dizer que a transcrição da API é o padrão para estudos
lingüísticos em que se quer uma transcrição rigorosa e independente
de idioma.
O rigor da transcrição da IPA, em certos casos, pode ser uma desvantagem. No estudo
de um idioma específico, por exemplo, uma transcrição voltada para
as especificidades desse idioma pode resultar mais prática e enxuta,
pois desconsidera itens ausentes no idioma. Por outro lado, quando se faz estudos envolvendo
vários idiomas, as vantagens da transcrição da API são visíveis, já
que ela considera todos os fonemas presentes em idiomas conhecidos e
possui notações para tom, intensidade, duração e demais categorias
fonológicas.
Transcrições biunívocas orientadas por idioma
Cada idioma apresenta um conjunto
característico de fonemas. Os falantes tendem a se restringir a esse
conjunto, que lhes parece natural, pois estão habituados com ele e
quando incorporam estrangeirismos, muitas vezes modificam a
pronúncia do novo termo visando eliminar fonemas não pertencentes ao
conjunto básico do idioma.
O conjunto básico de fonemas de uma língua
costuma oscilar em torno de trinta a quarenta itens. Em português,
usamos 34 fonemas. O AFI (Alfabeto Fonético Internacional), por
outro lado, considera um número muito maior de fonemas, pois se
trata de uma transcrição universal. Quando adotamos o AFI na
representação da nossa língua estamos lançando mão de uma quantidade
de grafemas e convenções muito maior do que a necessária para a
representação correta dos discursos em português. A opção por uma
transcrição biunívoca universal pode, em certos casos, resultar em
exagero de rigor. Nessas horas é que uma transcrição biunívoca
focada no idioma pode resultar mais prática e usável.
Em nosso trabalho, sempre que quisermos
rigor fonológico na escrita, adotaremos uma
transcrição biunívoca orientada para o português brasileiro.
Trata-se de uma solução de equilíbrio, que contempla de um lado o
contato
dos falantes brasileiros com nossa ortografia e, de outro, considera as
soluções da transcrição universal da API. A transcrição que adotamos
resulta de uma condensação de soluções presentes na bibliografia
especializada.
Não temos ainda uma transcrição biunívoca
para o português brasileiro que possa ser considerada padrão. Aliás,
ainda estamos bem longe disso, mas é provável que com o tempo
cheguemos a uma padronização nessa área. |
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