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gramática do português permite
construir frases com dois ou mais verbos mas existem modelos bem
definidos que estabelecem como essas ocorrências simultâneas podem
acontecer. Antes de partirmos para o estudo desses modelos, vamos
analisar três enunciados que apresentam mais de um verbo.
Vim, vi, venci.
Ela reagiu chorando.
Tenho pensado no assunto.
No primeiro enunciado, temos três verbos
colocados lado a lado, mas uma observação atenta nos mostra que se
trata de três frases distintas, cada qual com seu verbo. Os verbos
não pertencem à mesma frase. Esse não é o tipo de enunciado que
queremos analisar aqui.
No segundo enunciado, temos dois verbos lado
a lado. Trata-se de uma só frase e, observando bem, vemos que o
verbo no gerúndio não pertence ao mesmo sintagma do primeiro verbo.
O verbo no gerúndio funciona como adjunto adverbial da frase. Também
percebemos que cada um dos verbos preserva seu significado nocional
típico. Nesse exemplo, temos uma frase com dois verbos em que cada
um desempenha função sintática distinta.
No terceiro enunciado, também temos dois
verbos lado a lado. O primeiro verbo não porta seu significado
nocional típico, o segundo está no particípio e ambos pertencem ao
mesmo sintagma. Nesse caso, temos dois verbos que
cooperam para realizar uma mesma função sintática e semântica na
frase.
Embora seja comum entre os lingüistas tratar
ocorrências do terceiro tipo como locução verbal, cremos que existem
restrições a essa prática. De nossa parte, não vamos
insistir muito nessa idéia porque ela depende da maneira
como se faz a análise sintática da frase. Preferimos tratar a
ocorrência simultânea de verbos em uma mesma frase como combinação verbal, ou seja, como uma simultaneidade
em que os verbos se relacionam por regras bem definidas.
Em nossa análise, vamos nos ocupar dos casos
em que verbos ocorrem na mesma frase, mas lembrando que isso pode
se dar de duas formas: com os verbos exercendo funções sintáticas
distintas ou então, cooperando para realizar uma mesma função. Não
vamos nos preocupar porém, em tratar esses dois casos distintamente.
As combinações verbais se inserem no
contexto mais amplo da sintaxe da frase, mas por enquanto vamos nos
focar somente nas relações entre verbos.
Modelos de combinação de verbos
As combinações de verbos em uma frase seguem
modelos bem definidos. Alguns desses modelos são:
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Ter/haver + V particípio (THP)
Ex.: tenho trabalhado, havia encontrado.
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Ser/estar + V particípio (SEP)
Ex.: foram vencidos, estava confiscado.
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Estar + V gerúndio (EG)
Ex.: estiveste estudando, estarei viajando.
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V + complemento verbal (VCV)
Ex.: Tentarei comparecer, consegui acabar.
Regularidades dos modelos
Várias regularidades podem ser observadas em
frases que apresentam combinações verbais. Vejamos algumas delas:
-
Os modelos de combinações verbais são
binários, ou seja, envolvem dois verbos.
Ex.: tenho trabalhado, foi vendido, está dormindo.
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Frases que apresentam mais de dois verbos são
geradas por encadeamento de modelos binários.
Ex.: tenho sido enganado. No exemplo, temos o encadeamento
de dois modelos binários, o THP com o SEP.
-
O primeiro verbo na ordem de emissão é o
que porta as informações de categorias morfológicas e, por isso,
pode se apresentar em flexões que definem
tempo, modo e aspecto.
-
O segundo verbo e os que lhe seguem, só podem
empregados nas chamadas flexões nominais (gerúndio,
infinitivo ou particípio), indefinidas em tempo, modo e aspecto.
Ex.: Pode querer tentar voltar. No exemplo, apenas o
primeiro verbo está definido em tempo, modo e aspecto. Os demais
estão em flexão nominal.
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O último verbo da combinação porta
significado nocional, o que nem sempre ocorre com os demais verbos
da combinação.
Ex.: Tínhamos sido agraciados. Somente o último verbo da
combinação porta significado nocional. Os demais, tem seu sentido
nocional dissipado.
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A flexão do verbo à direita é determinada
pelo verbo à esquerda.
Ex.: tinha sido convencido. O verbo ter define a
flexão particípio para o verbo ser porque assim pede o
modelo THP. O verbo ser define o particípio para o verbo
convencer, pois assim exige o modelo SEP.
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Verbos usados na primeira posição do modelo
podem se repetir na última posição, desta vez portando significado
nocional.
Ex.: ia indo, tenho tido.
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