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efinição é um enunciado que
delimita um conceito na sua exata extensão e compreensão, de
modo unívoco em dado contexto, inteligível para dado
background e de modo eficaz para determinada função.
Poderíamos deixar o conceito de
definição mais restrito e mais rigoroso para obter definições
mais concisas, acrescentando condições como:
-
Necessidade para as partes. Cada
parte que compõe a definição deve ser necessária.
-
Suficiência do conjunto. A
conjunção das partes é suficiente para delimitar o conceito.
-
Não trivialidade no background
dado, quer dizer, não incluir na definição o que se supõe
conhecido.
-
Essencialidade para a definição.
Exigir que a definição remeta à essência do conceito.
Tais restrições, contudo, são
dispensáveis. Podem ou não ser exigidas caso a caso.
Do que se disse podemos concluir:
-
Se um enunciado define X, só
define X no contexto. Ele não pode ser ambíguo.
-
Outro enunciado pode igualmente
definir X.
-
Não se extrapola o background
dado.
-
Uma definição boa para um
contexto pode não o ser para outro.
-
Uma definição boa para uma
função pode não o ser para outra.
Há diversas maneiras de delimitar um
conceito, tais como:
-
Relacionar suas propriedades,
dizer o que ele é, de modo absoluto e não comparativo.
-
Mostrar no que ele se diferencia
dos demais objetos considerados no contexto.
-
Estabelecer a posição ocupada
pelo conceito numa taxonomia para os conceitos do universo
considerado.
O modo escolhido deve ser
relevante para tornar a definição eficaz ao que se destina.
Uma definição pode ter uma ou mais
das seguintes funções:
-
Nomear o conceito, se a
definição for nome.
-
Estabelecer o conceito, se é
pela definição que ele é tornado público.
-
Fazer conhecer as
características do conceito. Nesse caso sua função é a de
transmitir um conhecimento.
-
Distinguir o conceito num dado
universo.
-
Evidenciar as relações do
conceito com outros conceitos do universo do contexto.
Contextualidade de definições:
Um enunciado só é definição se for estabelecido o contexto em que se
aplica e suposto um background mínimo de quem a usa. 'Animal
racional' é uma definição para homem num contexto da zoologia,
que pode ter pouco valor num contexto metafísico. Além disso, é
necessário que se saiba o que é 'animal' e o que é 'racional'.
Tipos de definição
Nome:
É uma palavra ou locução que
define um conceito, é definição, e tem com o conceito uma
relação simbólica. O nome é signo para o conceito, logo, tem
permanência, reprodutibilidade e aceitação.
Definição analítica:
É aquela que delimita o conceito
relacionando seus atributos, suas propriedades. A forma de uma
definição analítica é uma conjunção de proposições.
Definição classificatória:
É um tipo de definição
analítica que se vale dos critérios de uma taxonomia. O caso
particular mais notável é a definição aristotélica, na qual o
conceito é definido citando-se o gênero próximo e a diferença
específica. Gênero próximo é a classe taxonômica mais restrita a
que pertence o conceito e diferença específica, o que o
diferencia dentro do gênero essencialmente.
Não se deve confundir definição classificatória com definição dentro da taxonomia.
Definir uma classe dentro de uma taxonomia é determinar sua
posição dentro da taxonomia, o que pode não ser suficiente para
que o receptor delimite o conceito.
Definição por exclusão:
É a que diz o que o conceito
não é numa classe. Para ser válida, é necessário que o conceito
definido seja classe complementar da classe negada.
Equivalência de definições:
Duas definições se equivalem
quando se referem ao mesmo conceito.
São muito comuns os enunciados que
evidenciam equivalências de definição. A equivalência mais
praticada é aquela que relaciona o nome a uma definição
analítica. Exemplo: 'O homem é um animal
racional.'
Definição ostensiva:
É uma categoria que diverge em
natureza das definições até aqui abordadas. É o ato de fazer
conhecer na objetividade a que o nome se refere. Exemplo: 'Uma vaca? Vaca é aquele
bicho lá no pasto. Está vendo?'
'Ser' e 'nada' são indefiníveis.
Pseudodefinições
Perífrase: É a citação de
um ou outro atributo essencial do conceito. É uma definição
analítica incompleta.
Exemplificação: Cita-se um
caso de ocorrência do conceito.
Contextual: Aplica-se o
conceito a um contexto em que ele se ajusta.
Intuitiva: É uma mera
aproximação sem rigor.
O prefixo 'pseudo' não deve ser
entendido como pejorativo. As pseudodefinições, para dados
contextos são suficientes e práticas.
Definição circular:
É o enunciado no qual se define um
conceito usando-se o conceito na tentativa de definição. De outro
modo, para entender uma definição circular, o conceito definido
tem que ser conhecido nos termos em que a definição deveria
estar dando a conhecer.
Exemplos: 'Precisão é a
delimitação precisa dos limites'.
Não há definição circular quando,
por exemplo, define-se o conetivo 'e' enquanto categoria
lingüística por meio de um enunciado onde se usa 'e'. Nesse
caso, temos a diferença entre uso e menção.
Há um caso especial de definição
circular que é aquela em que é necessário o conhecimento de
conceitos que formam grupos de mesma raiz conceitual.
Seja o enunciado: 'O estrategista
é aquele que se ocupa da estratégia'. Os conceitos delimitados
por 'estratégia', 'estratégico', 'estrategista' pertencem a uma
mesma raiz conceitual. Se quem lê o enunciado acima sabe a que
se refere 'estratégia' e não sabe a que se refere
'estrategista', julgará a definição acima válida. Agora, se o
receptor carece do conhecimento da raiz comum aos conceitos,
tem-se uma definição circular de 'estrategista'. Esse tipo de
definição é típica do dicionário. No dicionário, escolhe-se uma
palavra num grupo de mesma raiz. Para essa palavra dá-se uma
definição usando referências que não dependem do conhecimento
prévio da raiz. As demais palavras do grupo são definidas em
função dessa. Se quem usa o dicionário encontra uma definição
com este tipo de circularidade terá de buscar a entrada lexical
em que esta se rompa.
Equivalência circular de
definições: Quando se
pratica uma equivalência de definições, na maioria das vezes, o
que se pretende é apresentar uma alternativa a quem recebe o
discurso para que este possa delimitar o conceito. Quando se
diz: 'Gastrite é uma inflamação do estômago' está-se
estabelecendo uma equivalência entre um nome, 'gastrite', e uma
definição analítica, 'inflamação do estômago', provavelmente
porque nem todos sabem que o nome gastrite define uma inflamação
do estômago. Uma equivalência circular, ou circunlóquio, é
aquela em que não se agrega a informação nova que o receptor
carece. Na equivalência circular ocorre apenas uma mutação
cosmética da definição. As informações constantes em cada lado
da equivalência são basicamente as mesmas. Não acontece a
informação nova.
A utilidade da equivalência de
definições: Existe uma
falácia que diz que toda equivalência de definições é inútil
porque elas se reduzem à fórmula 'A é A', o que não acrescenta
nada ao conhecimento. Realmente a redução existe. Quando se diz
'Gastrite é uma inflamação do estômago' está-se praticando uma
equivalência que se reduz ao princípio da identidade. Mas dizer
que práticas desse tipo são inúteis é um erro, pois nem todos
sabem que gastrite é uma inflamação do estômago. A falácia
parte da premissa que todos conhecem a natureza das coisas e o
significado dos nomes e aceitando-a concluímos que os
dicionários e os livros didáticos são inúteis. Hoje, dizer: 'A Terra é
um planeta redondo' é uma redundância. No tempo em que se
julgava a Terra chata era uma heresia.
A falácia da circularidade da
busca dos significados:
Consiste em pensar que é
impossível conhecer o significado das palavras porque eles
são elucidados pela prática de equivalências de definição, como
se faz nos dicionários. Quer dizer, o significado de uma palavra
é explicado com outras palavras, que são explicadas por outras,
até que retornamos à palavra inicial. A falácia existe quando se
desconsidera a existência da definição ostensiva, que em algum
ponto da cadeia de equivalências de definição se interpõe para
tirar o receptor do labirinto de palavras que remetem a outras
palavras.
Grupos de definições concatenadas:
São um conjunto ordenado de
definições e ocorrem geralmente nas
teorias científicas e matemáticas. Um ou mais conceitos costumam ser considerados
primários, ou seja, são introduzidos sem definição. A primeira
definição do grupo é estabelecida com referências unicamente a
conceitos primários. A segunda definição pode se referir a
conceitos primários e ao conceito delimitado pela definição l. A
definição n pode ser feita com referências a conceitos primários
e a quaisquer conceitos delimitados pelas definições
precedentes.
Os grupos de definições
concatenadas são organizados por background crescente.
Geralmente escolhem-se para conceitos primários os mais
evidentes e simples, o que não é absolutamente necessário, mas
geralmente conveniente.
Outros casos particulares
Definição extensiva: ocorre quando
são todos os tipos possíveis do definido.
Por exemplo: 'Europeu é o inglês, o francês, o alemão, o
italiano, etc.'
Definição compreensiva:
quando os atributos genéricos do definido são mencionados. Ex.:
'Europeu é o nascido na Europa'.
Definição essencial: quando
são citadas as características essenciais do definido.
Definição recursiva: usada
para definir o elemento n genérico de uma seqüência ordenada.
Define-se o elemento n remetendo ao elemento de ordem
imediatamente inferior ou superior, conforme o caso, para o qual
também serve a definição recursiva. Um elemento se presta à
definição do elemento seguinte ou do antecessor formando uma
cadeia de definições até atingir o primeiro ou o último elemento
da série quando, então, pela própria lógica da definição
recursiva, atinge-se uma condição de encerramento do
procedimento. Um exemplo disso é o modo como definimos nível
taxonômico neste site.
Definição de significado de
signos: Ao se perguntar
'O que é um carro?' e 'O que significa 'carro'?' no primeiro
caso está sendo pedida uma definição conceitual e no segundo
caso, uma definição de significado.
Para responder à segunda pergunta,
pode-se dizer: 'Carro é um automóvel', ou seja, praticarmos uma
equivalência de significados, também chamada sinonímia, quando
praticada entre nomes. Com uma resposta assim quem perguntou
pode ter enriquecido o seu conhecimento sobre o léxico do
português, mas não acrescentou nada ao seu conhecimento sobre as
máquinas, que são chamadas de 'carros' e também de 'automóveis'.
Numa equivalência de definições de
conceito duas definições são pertinentes ao mesmo conceito e numa equivalência de significados,
dois signos designam o mesmo conceito.
Há casos em que a equivalência de
significados se confunde com a de conceitos. Não há como dizer
se na frase 'Carro é um veículo motorizado de quatro rodas' há
uma equivalência de significados ou de conceitos, pois ambas
são formalmente idênticas.
A sinonímia costuma ser usada mais
como equivalência de significados do que como equivalência de
conceitos.
Não é para todos os enunciados que
o estabelecimento da equivalência de significado é simples como
no acima citado.
As palavras gramaticais, como
conectivos, artigos e pronomes, por exemplo, em geral não
oferecem meios de equivalência por sinonímia. Das interjeições
pode-se dizer que não significam, mas que expressam estados
emocionais. Das frases cerimoniais e protocolares pode-se dizer
que não significam como as palavras lexicais, mas que têm função
social em dadas situações.
Então, como se pode responder à pergunta 'O que quer dizer 'e'?' O conectivo 'e' não
tem sinônimos no português. Também não há nenhum objeto
relacionado ao signo 'e' como existe um objeto relacionado
com o signo 'carro'. No dicionário encontraremos na entrada 'e':
'conjunção que representa operação lógica de conjunção entre
termos sintáticos, etc.' O que o dicionário faz nesse caso é dar
uma equivalência de conceitos, em vez de uma equivalência de
significados. O dicionário supõe que 'e' está entendido como
signo, logo como conceito e propõe a equivalência com uma
definição analítica para uma categoria lingüística.
Uma outra solução que o dicionário
adota é a de definição contextual, que aqui consideramos uma
pseudodefinição. Vários contextos típicos do uso do 'e' são
apresentados.
Finalmente, é bom lembrar que
quando se estabelece a equivalência de significado entre 'carro'
e 'automóvel' esta equivalência se limita à referência. Não
estão sendo considerados os aspectos conotativos de cada signo,
o que rompe com a sinonímia se for exigida total similaridade
entre os signos.
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